Opinião: Ana Rita Guerra

Não é com vinagre que se apanham coronavírus

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Desvalorizar a taxa de contágio e mortalidade comparando-a com a gripe não fará nada para impedir a sua cavalgada pandémica

Numa passagem de “1984”, Winston diz que “liberdade é a liberdade de dizer que dois mais dois são quatro”, mesmo quando o Partido declara que são cinco. A negação dos factos é maleável e escorregadia, operando mutações mentais nas partes da população que seguem um político como a um ídolo, até ao momento em que bate de frente com a impossibilidade científica. Opiniões no Twitter não desinfectam aeroportos. Links no Facebook não aceleram uma vacina. A carnificina de falsidades no horário nobre das televisões não será suficiente para conter os efeitos do novo coronavírus, 2019-nCoV, que está prestes a tornar-se numa pandemia.

O dia chegou em que a resposta das pessoas a uma ameaça à saúde pública depende do seu campo político. A estratégia do governo federal nos Estados Unidos tem sido desvalorizar a seriedade da ameaça, restringindo a disponibilidade de testes. Os números de infectados com Covid-19 são necessariamente baixos se uma grande parte das suspeitas não for testada. Em público, o presidente da maior potência económica do mundo procura dar uma imagem de controlo, minimizando os efeitos do novo coronavírus e por vezes contrariando os seus próprios oficiais de saúde. Uma parte do seu eleitorado, a fiel base, acredita que o 2019-nCoV é uma criação dos opositores políticos (democratas) para mandar abaixo a economia e dificultar a reeleição do presidente incumbente.

Imaginem isto. Uma visão do mundo tão distorcida e afastada da realidade que nela cabe a crença de uma pandemia criada exclusivamente por operativos políticos e jornalistas para prejudicar o seu presidente. Há 105 países com casos confirmados de Covid-19 e 3584 mortos, número que sobe constantemente, e todas essas evidências são irrelevantes. A narrativa é de que uma facção política está a fabricar pânico para mandar abaixo o Dow Jones.

Desvalorizar a taxa de contágio e mortalidade comparando-a com a gripe não fará nada para impedir a sua cavalgada pandémica, mas pode causar atrasos sérios de resposta adequada e comportamentos preventivos. Apertar mãos em frente às câmaras para mostrar que não há perigo será inútil para os pacientes ligados a ventiladores e esta não é hora de operações de marketing político.

O vírus 2019-nCoV e a infecção subsequente, Covid-19, não são comparáveis à gripe; a sua taxa de mortalidade é dezenas de vezes superior e não temos ainda vacina para este vírus. As pessoas saudáveis que zombam da histeria dos que põem máscaras cirúrgicas e compram paletes de gel desinfectante e papel higiénico estão a esquecer-se de que o risco é mesmo elevado para os mais velhos. E toda a gente tem familiares mais velhos e não tão saudáveis para quem o Covid-19 pode ser fatal.

A desinformação que grassa online é quase criminosa, porque oscila entre tentar convencer as pessoas de que isto não é nada e garantir que gargarejar com lixívia ou comprar solução de prata são eficazes contra a infecção. O risco de haver mortes evitáveis é real.

Há uma grande diferença entre tomar medidas ineficazes dominadas pelo pânico e admitir que há razão para alarme e criar planos de contingência sérios. Escolas fechadas, trabalho remoto, eventos cancelados, auto-quarentena. Não se metam em cruzeiros. Como vamos proteger os mais vulneráveis? Como vamos evitar uma recessão global provocada pela paralisia económica e social? Como vamos preparar-nos para este tipo de ameaças no futuro? Aqui, na maior potência económica do mundo, os planos de mitigação são potencialmente desastrosos. 27 milhões de pessoas não têm seguro de saúde. Não há rede de saúde pública. Não há baixas nem férias pagas. O capitalismo feroz está prestes a encontrar o seu maior inimigo, talvez o único que não poderá (con)vencer.

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