Opinião: Alberto Castro

Não há adultos na sala?

Presidente da Comissão Europeia, Ursula Von Der Leyen. Fotografia: Olivier Hoslet/EPA
Presidente da Comissão Europeia, Ursula Von Der Leyen. Fotografia: Olivier Hoslet/EPA

O BCE e a Comissão Europeia cedo compreenderam que, desta vez, as coisas eram mesmo diferentes

Sempre houve o Reino Unido e os outros. Depois o Norte e o Sul, os austeritários e os despesistas e os de Visegrado. Veio a pandemia e surgiram os frugais e, agora, os inteligentes. Algumas democracias foram ao ginásio e saíram de lá musculadas, na verdade ditaduras “democráticas”. Vá lá que se trata de uma União. Olha se não fosse!

Num quadro como este a resultante natural é “o cada um por si”. Nesse jogo, segundo o think-tank Bruegel, a Alemanha salienta-se tanto nos estímulos orçamentais (10,1% do PIB de 2019), como nos adiamentos (14,6%) ou noutras medidas e garantias (27,2%). Em todas essas dimensões não há quem a bata. Por comparação, Portugal afeta 2,5, 11,1 e 5,5%. Traduzindo em valores absolutos, isto significa que a Alemanha adotou medidas de apoio à sua economia de cerca de 1 bilião e 780 milhões de euros (8 vezes o PIB português) enquanto, em Portugal, o esforço será de cerca de 40 mil milhões. Como alertava Elisa Ferreira, a flexibilização das regras das ajudas de Estado abrem as portas a desequilíbrios brutais. Se nada fosse feito, a dita União emergiria desta crise com um agravamento dos desequilíbrios que a comprometeria, e ao euro, em definitivo. Neste contexto, invocar o argumento da proporcionalidade, como fez o Tribunal Constitucional alemão, só pode ser um exercício de cinismo por mais que alguma da nossa direita dita liberal se afadigue em sublinhar a razão formal do dito parecer (por contraposição ao seu masoquismo bafiento, leia-se o editorial do Financial Times).

O BCE e a Comissão Europeia cedo compreenderam que, desta vez, as coisas eram mesmo diferentes. Ambas explicaram o objetivo das propostas, justificaram-nas e estabeleceram condições para evitar eventuais usos oportunistas. Podem ser melhoradas? Decerto. Cabem no quadro formal da atual arquitetura europeia? É duvidoso. Se sobrevivermos unidos, há que a fazer evoluir. Neste momento, sobrepor a forma ao fundamental é um exercício parecido com a discussão sobre o sexo dos anjos. Sabe-se como esta acabou. OS EUA, a China e a Rússia já salivam.

 

Alberto Castro, economista e professor universitário

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