Não há salvação para o Facebook

Na semana passada, o senador democrata Richard Blumenthal perguntou à responsável de segurança global do Facebook, Antigone Davis, se a empresa se comprometia a "acabar com o Finsta." Supõe-se que o senador estivesse a tentar usar o abreviativo Insta, de Instagram, mas a gaffe tornou-se no momento mais viral desta enésima audiência com responsáveis da rede social no congresso norte-americano.

O problema é que os legisladores nos Estados Unidos questionam muito, barafustam ainda mais, e acabam por não fazer nada que se veja. Andamos há mais de dez anos a descobrir problemas graves na gestão do Facebook e das suas empresas, na conduta profissional do CEO Mark Zuckerberg e outros líderes, no impacto que a rede tem na democracia e na sociedade - e em termos de consequências há pouco ou nada para mostrar.

Já sabemos que a cúpula que gere o Facebook, o Instagram e o WhatsApp não tem vergonha na cara. Já sabemos que fomos papalvos no escândalo da Cambridge Analytica, que andámos a ser seguidos online sem saber, que o ego de Zuckerberg está mais inflacionado que a bitcoin e que de Silicon Valley nem bons investimentos nem bons casamentos. O que mais será preciso para tomar medidas drásticas? É que para os lados de Menlo Park, onde está a sede do Facebook, absolutamente nada de novo.

Até o ultraje perante o último escândalo cheira a mofo - mas pode ser que desta vez se faça mais que sacar das bolas de naftalina. As revelações feitas este Domingo por Frances Haugen, uma ex-cientista de dados do Facebook, confirmam tudo o que já julgávamos saber sobre a forma como a empresa funciona. Mas dão um colorido essencial, e pode ser que seja desta que legislação (ou punição) avançam mesmo.

Haugen é a "whistleblower", até agora anónima, que vazou documentos internos do Facebook e entrou com várias queixas a nível federal contra a empresa. Uma das queixas diz que a pesquisa interna da rede social mostra o seu papel na amplificação do ódio, desinformação e instabilidade política, mas que a empresa finge não ter conhecimento disso.

Outra das queixas alega que a pesquisa também identificou efeitos prejudiciais do Instagram na saúde mental e emocional das raparigas adolescentes, e é esta questão que está a merecer maior atenção por parte da opinião pública. A reportagem do Wall Street Journal com base nestes documentos vazados, em setembro, levou a que o Facebook colocasse travões na ideia ignóbil de criar um Instagram para menores de 13 anos. Bravo, WSJ, conseguiram mais que os 535 membros do congresso norte-americano nos últimos dez anos de escrutínio.

Numa entrevista explosiva que Frances Haugen deu ao programa "60 Minutos", a ex-funcionária disse alto e bom som o que todos sabemos: "Uma e outra vez, o Facebook demonstrou que escolhe os lucros em detrimento da segurança."

Crescer é o mote, independentemente da devastação que fica pelo caminho. Na rádio NPR, um segmento sobre esta crise do Facebook - não sei quantas vezes a rede já teve crises existenciais, mas se alguma houve esta é a mais forte - dizia-se que a equipa de comunicação da gigante está em modo de combate, como se estivesse numa guerra. E está. As declarações dos responsáveis da empresa podem explicar alguns aspectos, mas a peneira não tapa o sol glorioso que está a iluminar os recantos mais podres deste poderoso conglomerado.

Não há nada de errado em assumir problemas. Não há nada de errado em mudar de direcção, quando se percebe que o caminho, embora frutuoso, causa mais mal que bem aos demais. Gostaria de pensar que o Facebook pode existir como uma empresa grande, lucrativa e poderosa sem rebentar com a privacidade, a saúde mental dos seus utilizadores e, num âmbito mais geral, o tecido democrático.

É que os serviços que o Facebook fornece são inigualáveis e têm fortes características positivas. Há um ecossistema sem precedentes à volta deles e suponho que toda a gente o queira ver crescer. Isso não pode é continuar a acontecer à revelia da realidade: as redes sociais têm uma responsabilidade incontornável e os seus líderes precisam de a assumir, tomando medidas que podem abrandar o crescimento no médio prazo mas serão sustentáveis no horizonte mais longo.

Se calhar não vamos a tempo de ver Mark Zuckerberg ganhar consciência. Possivelmente não há salvação para o Facebook tal como está. E se assim for, haverá que desmantelar a besta antes que ela nos destrua a nós.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de