Não porque não

Gosto de dizer não porque não. Dizer não porque não é o maior exercício de liberdade que existe. Não porque não: nem é porque não me apetece ou porque não posso, é porque não e ninguém tem nada a ver com o meu não. Os meus filhos pedem-me coisas todos os dias, sobre tudo, a toda a hora e com a insistência de uma mosca que não sai de cima de uma colher de mel; se soubessem as coisas que lhes passam pela cabeça pedir-me, vocês riam-se. Diz a minha mãe que "faz parte; eles pediram e faz parte nós dizermos que não". O "faz parte" da minha mãe é uma enciclopédia de educação - a minha mãe sabe todas as coisas que fazem parte de cada idade e as respetivas formas de lidar com essas coisas.

Quando eu respondo que não aos meus filhos eles exigem saber porquê, "mas porquê, mãe...?", perguntam num queixume prolongado e arrastado. "Porque não." E insistem até ao meu limite porque acham que têm direito de saber porquê e eu a obrigação de me justificar, de passar pelo crivo do discernimento dos meus menores. Pior, acham que a insistência os leva a algum lado. Mas isso não é resposta, respondem eles ao meu não porque não. Tanto é que é.

"Porque não" é a melhor resposta do mundo. Porque é que não gostas do Medina? Porque não. Porque é que não gostas de anchovas? Porque não. Porque é que não nos deixas fumar? Porque não. Nós, pais, devemos e temos de funcionar como uma repartição pública: não é porque não. Não atende depois das cinco porque não; o requerimento não tem resposta porque não; não se pode agendar porque não; não funciona com rapidez porque não. Alguém imagina argumentar com a senhora que está do lado de lá do balcão? Claro que não, e é por isso que existem os livros de reclamações. Querem saber porque não? Escrevam aqui no livrinho e logo se vê. Não porque não, é uma prerrogativa de autoridade, o exercício pleno da autoridade. Não tem que ver com legitimidade, apenas com poder natural - aliás, é a última réstia de direito natural desde o falecimento das monarquias absolutistas. É o eu é que sei e não me chateies mesmo que não saiba.

A educação sem o não porque não é como o trânsito sem regras de trânsito, o caos. Nós, pais, não sabemos explicar a razão de ser das nossas regras, daquelas ordens que nos saem da alma e não da razão, daqueles medos que nos tiram o sono, daqueles instintos que nos alertam para o início da idade da parvoíce. Não porque não é o lema de tudo isso. É a nossa natureza de pais a agir em defesa da continuidade e sobrevivência da espécie. Os pais que explicam aos meninos que não podem comer o chupa porque faz mal aos dentes não gozam em plenitude a sua condição de pais. Reparem: os miúdos não querem saber dos dentes, porque ainda não lhes dói e porque não são eles que pagam a conta do dentista. Se não querem que eles comam chupas, expliquem-lhes que não podem comer porque não e peçam mais um café. Acreditem que a vida vos irá correr muito melhor.

Não porque não, é o último recanto dos pais deste tempo, é o abrigo dos fortes e dos fracos contra a pressão, a exigência e o bullying de que somos vítimas diariamente. O não, meus amigos, não tem de ter uma razão para ser dito, apenas requer autoridade para ser acolhido. Nunca desistam, porque eles certamente não desistem.

Jurista

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