Banco da China

Não quero charters deles

Se não vê qualquer problema no facto de a China Three Gorges ter
comprado 21,35% do capital da EDP, não leia nem mais uma palavra,
pois tenderá a ter pensamentos insultuosos, quem sabe, agressivos.

É verdade que, até ver, foi um bom negócio para a EDP. Como
sublinhou, de forma honesta, Paulo Portas, após a cerimónia de
assinatura do contrato: a proposta chinesa foi a melhor e, num
momento em que se pede sacrifícios aos portugueses, não se pode
deitar dinheiro fora.

A China Three Gorges foi quem pagou mais, foi quem melhor
assegurou a resolução dos problemas de endividamento da eléctrica
portuguesa e foi também quem pôs na mesa mais dinheiro para
financiar o crescimento dos próximos (difíceis) anos.

Terá sido verdade, como tantas vezes sublinharam Gaspar e Mexia
nos discursos (em inglês?!) da cerimónia de assinatura do contrato
com os chineses, que o processo foi de uma transparência à prova de
bala. Como se a vitória dos chineses contra os europeus alemães e
os irmãos brasileiros fosse a prova provada de que mais
transparência teria sido impossível.

Foi, sem dúvida, um passo de gigante para a China Three Gorges,
que passou a ser o principal accionista de uma empresa, que mesmo não
sendo uma top mundial das eléctricas, é o terceiro maior produtor
de energias renováveis e o maior dos Estados Unidos. Só no sector
das energias limpas, as portas ficam abertas em 13 países – Espanha,
França, Itália, Polónia e, claro, os Estados Unidos, entre outros.
O gigante Brasil é outro dos mercados preferenciais da EDP, neste
caso na produção e distribuição de energia. É muito mercado para
a chinesa China Three Gorges.

Não menos importante é a relevância do estreitamento das
relações entre os dois países – a nova accionista da EDP é
controlada pelo Estado chinês. Neste momento crítico da economia
portuguesa, o investimento estrangeiro é desejado e bem-vindo.
Faz-nos falta o dinheiro que não temos para que a economia cresça e
crie emprego – o desemprego é a principal preocupação para 2012.

Mas vamos ao que a mim me importa e me leva a gastar-vos tempo. Os
investidores chineses não são todos iguais, nem sequer são iguais
a todos os outros. E, não, não se trata de xenofobia. Chineses,
portugueses, alemães ou brasileiros, todos têm direito ao mesmo
sol.

Mas viu o que os diferentes governos portugueses fizeram da CGD,
não viu? Imagine o que fará das suas empresas o governo de um país
não democrático. Sim, a China Three Gorges é uma empresa estatal e
terá, no final de tudo, que servir os interesses do seu
accionista. Existe um risco no negócio com a China Three Gorges
e não é apenas reputacional. Evito questões como a dos Direitos
Humanos e dos animais para evitar o rótulo Amnistia Internacional.

Mas pronto, agora já está. Risco assumido, agora há que
geri-lo, caso ele venha a revelar-se. Também é para isso que
existem os órgãos sociais da EDP e os reguladores do sector da
energia e, em última instância, o Parlamento e os tribunais.

Mas agora, calma na privatização da REN, para a qual já existem
interessados chineses, bem como na resolução da inexistente
estrutura accionista do BCP, onde também já há ofertas da China.
Não, não deve ser como disse Cao Guangjing, o presidente da Three
Gorges: Podemos trazer o dinheiro e os bancos chineses para a EDP,
para o BCP, para as empresas de turismo e etc.

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