Opinião

Não temos medo de vocês

ACL Fest

Dizem que entre o verão e o outono não há diferença no Texas. Está sempre um calor abrasador e o sol pica-nos a cara desde que se levanta até que se põe. À noite cheira a tempestade de verão, mesmo que não chova. Só se usa casaco dentro dos edifícios, que têm o ar condicionado perenemente no nível antártico. Este fim de semana, à torreira do calor da capital do Texas, Austin, assisti ao primeiro mega festival de música após o terror do tiroteio em Las Vegas.

As filas para entrar eram massivas e havia quem andasse a distribuir água para evitar golpes de sol e calor. Era preciso passar por três postos de segurança antes de entrar, abrir as malas mais que uma vez e ser revistada manualmente, por vezes com detetor de metais. Havia polícias com cães nas entradas e agentes a passar o recinto a pente fino. No Texas, onde é fácil comprar uma arma e legal andar com ela em todo o lado (à vista ou não), a sombra do massacre de Las Vegas pairou sobre o Austin City Limits. É um dos maiores festivais de música do país, com 225 mil pessoas em cada um dos dois fins de semana. Tem famílias, grupos de adolescentes, casais, universitários, amantes da música country com chapéus de cowboy, gente a beber cerveja e a fumar canábis. As multidões são gigantes e espalhadas por um parque de grandes dimensões. O que aconteceria se algum louco se lembrasse de imitar o terrorista de Las Vegas?

“Sou uma pessoa atenta e estou sempre preparado”, dizia um homem numa reportagem televisiva antes do festival começar. Já lá dentro, olhando para o mar de gente sentada e deitada na relva, lembrei-me daquelas palavras. “Não tinhas hipótese nenhuma, meu caro.” Ninguém teria. Qualquer evento desta natureza transforma os participantes em alvos indefensáveis.

E, ainda assim, os festivaleiros decidiram ir sem medo. A organização do Austin City Limits, ACL Fest, ofereceu o reembolso dos bilhetes a quem já não quisesse ir por causa do que aconteceu no festival Route 91 Harvest, mas pouca gente optou por falhar o evento.

“Vimos da fabulosa Las Vegas”, disse Brandon Flowers, vocalista dos The Killers, que fecharam o festival no domingo. “Como músicos, queremos dizer obrigada. Nunca deixem qualquer filho da mãe meter-se entre vocês e o que querem fazer.” Flowers, que envergava um casaco com brilhantes a fazer lembrar Elvis Presley, foi um dos muitos músicos que passaram mensagens de força e desafio. “Espalhem amor!” gritavam os Run the Jewels. “A música une-nos de uma forma que mais nada consegue”, disse Mark Foster, vocalista dos Foster the People. “Quero que saibam que o amor irá sempre triunfar sobre o ódio”, garantiu Jay-Z.

Entre os festivaleiros, que pagaram 100 a 255 dólares para estarem ali, o sentimento era de resiliência. Se deixarmos de fazer o que queremos, se tivermos medo de irmos à rua, se não vivermos por receio do que pode acontecer, então os inimigos da América terão vencido. Inimigos da América no sentido de ideal – o país da liberdade, do sonho americano, da perseverança e das pessoas “self-made.” Havia homens vestidos com macacões feitos da bandeira americana, chapéus à Tio Sam em azul, branco e vermelho, mas também bandeiras de outros países e muitos, muitos memes impressos em cartão. No Austin City Limits é comum levar pequenos estandartes para ser mais fácil encontrar os amigos. “Encontra-me ali ao pé da Tina do Bob’s Burgers” é algo que se podia ouvir durante este fim de semana.

Nos dias que se seguiram ao massacre, a discussão sobre o controlo de armas versus a Segunda Emenda regressou em força, e desta vez é possível que alguma coisa, ainda que pouca, venha a mudar. Não haja ilusões, o mercado das armas vale muito dinheiro, mais que o dos festivais de música, e contra a matemática do capital não há argumento que vença. Mas há mensagens que se vão tornando mais fortes. Como a do cartaz que um grupo carregou durante todo o festival: “Acabem com os tiroteios em massa. Não temos medo de vocês.”

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