Não tenho vocação para ser mãe

Adoro os meus filhos, dava (dou) a vida por eles, todos os dias agradeço a Deus as suas vidas, o seu amor, saúde... blá, blá, blá. Mas se me perguntarem se eles são as pessoas do mundo com quem eu mais gosto de estar, respondo honestamente que não, tenho muita pena mas não são. Por exemplo, se eventualmente alguém me perguntasse: Gostas mais de jantar com os teus amigos ou com os teus filhos? E diria, honestamente, os amigos. E porquê? Os amigos portam-se bem à mesa, pagam o jantar deles, não têm de ir para a cama cedo e têm idade para beber álcool - o que faz toda a diferença quando se janta fora. E viajar? Também, claro. Viajar com filhos ou com amigos é a diferença entre comprar um bilhete para uma zona de guerra ou para Maldivas. Viajar com os filhos de carro é insuportável, de avião é caríssimo e gasta-se uma fortuna em alojamento e comida. Depois, eles não gostam de museus nem de teatros, não entram em bares, perdem-se a toda a hora e são consumidores e pedinchões compulsivos. Já viajar com os amigos, seguindo a regra sagrada do "amigo não empata amigo", é uma maravilha.

Também respondo com toda a sinceridade que gosto muito mais de estar em casa sozinha do que com eles, invade-me uma paz imensa quando estão todos a dormir. Não é que não goste de os ver acordados - gosto, mas quando eles estão a dormir é melhor.

Além de tudo isto, os meus filhos transformam-me, e é principalmente isto que me faz duvidar seriamente da minha vocação. Eu grito com eles como não grito com mais ninguém (o que seria...). A minha cabeça fica a latejar e uma fúria imensa invade-me, como aquela cena do filme do Exorcista, quando me respondem com aquela arrogância e teimosia dos malucos. Perco frequentemente a cabeça e fico dias sem a encontrar. Também os trabalhos de casa, as notas e as participações da escola, envelhecem-me, amargam a minha alegria de viver e azedam-me. Fico azeda e amarga ao mesmo tempo. "Não há nada para comer nesta casa"; "nunca me deixam fazer nada"; "preciso de dinheiro" são frases que ativam instintos bélicos dentro de mim que ignorava possuir. A desarrumação, o autoclismo por puxar, o cheiro a chulé, são tudo fatores que me tornam pior pessoa.

E eles queixam-se. No final, meus caros, eles queixam-se do meu feitio, de mim. "Ela está sempre mal disposta, é mesmo chata", já os ouvi dizer com estes ouvidos que a terra há de comer. Perguntem aos meus amigos se eu era assim. Não era. Era uma pessoa moderada, calma, divertida e em busca do consenso. Agora sou insuportável.

Digo-vos: se eu fosse minha filha já tinha fugido de casa. Uma pessoa está muito bem a ver tik-toks deitada na cama, quando, vinda do nada, uma maluca entra aos gritos pelo quarto adentro porque os sapatos não podem estar cima da cama, o quarto está desarrumado, o professor queixou-se de uma mesquinhez qualquer, chegou a conta da internet e sei eu lá mais do quê. Não deve ser fácil.

Sou uma alma solitária em agonia no meio de uma multidão. (Desconfio que a minha vocação é ser rica).

Jurista

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