Negociar um acordo

As descobertas de Hart e Holmstrom sobre como se deve negociar um acordo afetam diariamente milhões de pessoas.

Imagine que quer contratar alguém para a ajudar nas limpezas da casa. Tendo encontrado a pessoa certa, chega a hora de discutir condições. Você quer a casa limpa; ele não quer trabalhar mais horas do que as necessárias. Você quer que ele limpe com afinco; ele não quer fazer um esforço físico que ponha a sua saúde em risco. Ele vem durante o dia quando você está no trabalho, por isso não há forma de você saber de certeza se ele limpou os pratos e esfregou bem o chão ou não. Como é que podem chegar a um acordo razoável?

Uma perspetiva legalista diria que vocês deviam escrever um contrato extenso que especificasse tudo o que ele deve fazer e como será recompensado. Esta abordagem é claramente inútil. Vocês não têm tempo ou imaginação para escrever centenas de páginas. Em caso de conflito, o contrato seria inútil, pois nenhum juiz seria capaz de avaliar se ele esfregou três vezes a frigideira ou não. Outra abordagem inútil é afirmar que você é o patrão, por isso é quem manda. O empregado vai fazer o que for no melhor interesse dele, incluindo recusar trabalhar consigo, ou poupar-se sem você saber.

Bengt Holmstrom, que ganhou o Prémio Nobel de Economia neste ano, notou que o contrato deve concentrar-se apenas no que diz respeito às ações diretas do empregado com impacto na limpeza da casa. Criar regras sobre o que ele deve vestir e a que horas chega, ou fazer o pagamento depender de se a casa está húmida com o tempo ou se deve cheirar menos a tabaco por causa do vizinho que fuma, não só não leva a que o empregado trabalhe mais como requer pagar-lhe mais para o compensar pelo risco de às vezes receber mais e outras vezes menos por causa do tempo ou do vizinho. Um segundo resultado clássico de Holmstrom nota que fazer o pagamento depender de ter os balcões da cozinha a brilhar também não é eficiente. O empregado vai passar muito tempo a fazê-los brilhar e pouco tempo a limpar o chão da casa de banho. Um acordo mais simples, que recompensa o empregado por trabalhar um número certo de horas e manter a casa limpa como um todo, pode ser melhor.

O outro laureado, Oliver Hart, focou-se em quem deve comprar os produtos de limpeza e o aspirador. Se for o empregado a fazer tudo, então ele é de facto uma firma a quem você contratou o serviço. O problema é que ele vai comprar os produtos mais baratos para poupar sem que você perceba, mesmo que isto danifique o valor da sua casa. Como é você quem sofre as consequências, é melhor que a vossa relação seja de patrão e empregado. Você dá os produtos e ele só presta o trabalho, como se fizessem parte da mesma empresa.

A obra destes dois autores é mais vasta do que isto. Não só no mercado de trabalho, mas em todas as situações em que se estabelece uma relação contratual entre duas partes, formal ou informal, surgem questões parecidas com as do patrão e empregado. As descobertas de Hart e Holmstrom sobre como se deve negociar um acordo afetam diariamente milhões de pessoas.

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