Nem Lagarde nos salva da tempestade perfeita

Quase um ponto percentual a mais num único mês e a taxa de inflação fixou novos máximos históricos. Para já, fica nos 4,9%, de acordo com o Eurostat, o valor mais alto desde que existe euro. A puxar esta perigosa carga - que ameaça seriamente rebentar a bolha de serenidade em que têm vivido as taxas de juros desde a última crise económica e financeira - está sobretudo a energia, cujos preços no mesmo período anual subiram 26%.

Christine Lagarde, que tem sido a maior defensora de países como Portugal - altamente endividados, pobres e pouco produtivos - ao defender para lá de todas as resistências a manutenção dos apoios às economias do euro por um prazo mais alargado e o achatamento da curva dos juros, veio ainda nesta semana serenar alguns ânimos que se agitavam. Depois de o presidente da Reserva Federal norte-americana ter assumido ser altura de "retirar o termo transitório da inflação" e libertar os juros, a presidente do BCE sentiu necessidade de frisar que é "muito improvável" que o BCE aumente as taxas de juro em 2022.

Em que medida o fez por acreditar nisso e em que parte o disse para convencer os mercados e evitar pânicos e perigar uma recuperação ainda mal iniciada, desconhecemos. Mas uma coisa é certa: Lagarde, antiga ministra das Economia, Finanças, e Emprego francesa e ex-presidente do FMI (durante a crise das dívidas soberanas), sabe quanto vale o controlo da inflação para a União Europeia e a possível harmonização entre os seus Estados-membros. E se ainda pode optar por fazer vista grossa a uma realidade inflacionista, que teima em validar-se mês após mês, o enquadramento não ajuda a que essa postura possa manter-se se os indicadores prosseguirem nesta direção. Sobretudo os preços da energia.

No meio de uma transformação energética em que a Europa - com Portugal à frente - vira costas aos combustíveis fósseis e abraça a eletricidade (que ainda precisa de inovação e investimento para se tornar verdadeira alternativa a tudo quanto ainda bebe energias sujas); fecha centrais nucleares (mesmo que depois importe energia nuclear aos vizinhos) e privilegia o gás natural (sujeito a enormes pressões geopolíticas, da Rússia ao Norte de África, dos Estados Unidos à China); e em momento algum se lembra de estabelecer regras que protejam as suas empresas do embate dessa transformação, nem sequer impondo barreiras a quem traz para a região produtos sem o chip verde, obrigando-as a transferir custos para os clientes... Enfim, Lagarde pode não ter muito tempo para permanecer ingénua ou mostrar tamanha boa vontade.

Junte-se a esta revolução energética a crise dos chips, a falta de matérias-primas, a concorrência feroz por talento e mão-de-obra e é fácil ver que a tempestade perfeita está aí.

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