Nem todas as startups têm de mudar o mundo

Quando uma jornalista perguntou a Adam Neumann se estava pronto para uma entrada em bolsa, o mítico co-fundador da WeWork, exibindo olheiras e um cabelo levemente desgrenhado, declarou que iria fazê-lo quando fosse o momento certo para a missão da empresa. E de que estava à procura? - continuou ela. "Queremos elevar a consciência do mundo", respondeu Neumann.

Esta declaração de intenções, que seria disparatada para qualquer fundador de uma startup, era parte do coquetel de Adam Neumann que inebriou milhares de empregados e alguns dos maiores investidores do mundo. A WeWork era, essencialmente, uma empresa de imobiliário que alugava espaço a empresas, empreendedores e freelancers. Mas Adam Neumann, um emigrante israelita que foi para Nova Iorque em busca do sonho americano, vendia uma aspiração, um propósito de vida diferente, uma faísca para mudar tudo.

A história de como Neumann fundou e quase rebentou com a gigante do co-working é retratada num novo documentário realizado por Jed Rothstein e disponível na Hulu: "WeWork: or the Making and Breaking of a $47 Billion Unicorn." O título alude à avaliação estratosférica que a WeWork alcançou em 2019 e que a levou a ser um dos unicórnios mais sobrevalorizados da história, antes de uma queda livre em 2020 que a deixou a valer menos de 3 mil milhões.

Os pormenores do percurso acidentado da WeWork são fascinantes, mas um dos aspectos que sobressai mais no documentário é a postura messiânica de Adam Neumann, que conseguiu convencer todos à sua volta de que estavam a mudar o mundo. Talvez a busca insaciável da geração Millennial por significado tenha criado as condições ideais para a ascensão de Neumann - ou talvez tenha sido esta idealização suprema do "fazedor" mitológico, o visionário que transforma uma ideia numa missão e a missão num colosso que altera o mundo para sempre. Mais que a cronologia, os investimentos e a contabilidade martelada, é o embevecimento estonteante de investidores, empregados e analistas com Neumann que torna a WeWork num conto de advertência para futuros empreendedores.

A narrativa mediática e corporativa que emergiu da grande recessão de 2008 ajudou a cimentar o endeusamento das startups de base tecnológica e dos seus criadores. Uma sequência de imagens no documentário mostra Mark Zuckerberg, Elon Musk e outros CEO da mesma poda que se tornaram praticamente quiméricos, apesar de comportamentos reprováveis e personalidades que não devem ser nenhuma estrela do Norte para os aspirantes a fazedores.

Neumann estaria na mesma liga se não tivesse implodido a sua reputação quando a WeWork submeteu um formulário para a entrada em bolsa absolutamente ridículo, que expôs a megalomania desenfreada que os muitos milhões geraram na sua mente. A única diferença entre Neumann e os CEO mal comportados é que estes foram bem sucedidos antes das suas extravagâncias virem a público.

No ethos da WeWork estava uma procura pela pertença, pela comunidade, pela proximidade com pessoas alinhadas, os nómadas digitais à procura da sua tribo. Não foi por acaso. A América, com toda a riqueza e oportunidades que tem, cultiva uma sociedade profundamente individualista, onde as pessoas têm poucos amigos, os relacionamentos são frágeis e o sucesso é mais importante que qualquer outra coisa.

Ao ver este documentário, olhando pela perspectiva de quem cresceu na sociedade portuguesa e vive na sociedade americana, senti que há uma especificidade contextual nesta bolha tecno-optimista que tem gerado CEO próximos de líderes de seitas. O marketing pessoal levado ao extremo; a forma em detrimento da substância; o fingir até conseguir; o vencer a todo o custo; o trabalhar até cair; e, por fim, a saída sem glória mas com um pacote compensatório multi-milionário. O tombo da WeWork arrasou muitas vidas, mas Adam Neumann saiu com 1,7 mil milhões no bolso, jactos privados e mansões em Nova Iorque.

Os milhões que foram torrados na loucura expansionista da WeWork perderam-se nas entrelinhas e os discursos apaixonados que Neumann fazia no "Campo de Verão" da empresa soam a banha da cobra.

É compreensível que as pessoas que deram tudo para construir esta empresa se sentissem inspiradas pela mensagem de Neumann. Acreditavam que o seu trabalho fazia a diferença. Queriam uma missão, não apenas um emprego.

Se é verdade que fazer algo de que gostamos é uma bênção, também é verdade que nem todas as startups têm de mudar o mundo. A certo ponto, Neumann - que liderava uma empresa essencialmente de imobiliário de escritório - já falava de acabar com a fome e com o abuso a crianças. Nem todos os líderes têm de se achar semi-deuses do Olimpo tecnológico. Nem todas as ideias têm de ser revolucionárias. Nem todo o trabalho tem de ser, diariamente, uma cavalgada para a glória suprema.

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