Opinião

Nem todas as teorias merecem oxigénio

Fotografia: REUTERS/Dado Ruvic
Fotografia: REUTERS/Dado Ruvic

Os esforços da Google em aumentar a sua diversidade são vistos

O fim de semana foi explosivo na Google, depois do memorando interno de um engenheiro se ter tornado viral dentro da companhia e, obviamente, vazado na Internet. É um trabalho extenso que pode ser resumido em duas ideias fundamentais: há menos mulheres na indústria tecnológica por causa das diferenças biológicas, não por machismo, e a Google precisa de se concentrar em ter mais pessoas de direita em vez de querer aumentar a sua diversidade (com mulheres e diferentes raças).

Este manifesto argumenta que as mulheres são naturalmente predispostas para tomar conta dos outros, a interessarem-se por pessoas, enquanto os homens se interessam por coisas e são mais resistentes ao stress, pelo que se dão melhor em trabalhos inflexíveis como os de engenharia. Que as mulheres são colaborativas e cooperativas, e que um dos preconceitos da Esquerda é querer ajudar os mais fracos. Que este manifesto deveria abrir a discussão, e propõe como solução desviar o foco de mais empatia e colocá-lo na ideologia.

As reações foram diversas: o homem deve ser despedido pela Google; o homem é uma besta, mas deve ter direito a expor a sua opinião; o homem é um herói e disse o que muita gente pensa em privado. Ao final do dia de ontem, a Google já o tinha despedido. Foi assim que se soube a sua identidade: é James Damore.

Ó meu caro James, meu elétrico atrasado em dia de chuva, meu café com borras depois de uma insónia: não, nem todas as teorias merecem oxigénio. A Primeira Emenda protege o direito à opinião e expressão, é certo; mas isto não é uma opinião enfiada num canto lamentável do Facebook. Isto é um manifesto, circulado numa empresa onde 80% dos engenheiros são homens, com o claro objetivo de questionar a competência das engenheiras – estão ali porque são boas, ou são um caso de caridade? Ele, tal como muita gente na América, acredita que o domínio dos homens brancos na indústria tecnológica (e nas hierarquias das empresas, nos mercados financeiros, na banca, nos bairros mais cobiçados) é fruto de uma seleção natural. Ele parte do princípio que toda a gente começa no mesmo ponto e simplesmente acontece que os homens brancos conseguem ir mais longe. Os esforços da Google em aumentar a sua diversidade são vistos, portanto, como uma forma artificial de retirar o lugar a quem merece e dá-lo a quem é menos qualificado mas tem uma pele mais escura ou o período uma vez por mês. O facto de a Google o ter despedido sem apelo nem agravo talvez seja melhor compreendido no contexto dos problemas legais em que está envolvida. O Departamento do Emprego norte-americano abriu um processo de investigação à empresa por discriminação salarial das mulheres, que é sistemática e abrange todas as áreas de operação.

Pelo tom da escrita, supor-se-ia que o autor é uma autoridade em termos de biologia – e segundo o seu Linkedin, é mesmo, com cursos avançados na área em Harvard e Universidade do Illinois. Isso torna ainda mais incompreensível o que ele diz sobre a diferença entre os dois géneros e os seus efeitos na engenharia. Tal como nota o engenheiro Yonatan Zunger, que saiu da Google na semana passada, a função de um engenheiro é muito mais colaborativa – e exige empatia pelos utilizadores e colegas – que escrever código sozinho num cubículo.

Damore também ignora factos históricos: que o número de mulheres em ciências da computação nos anos 60 e 70 era mais elevado do que é hoje – 37% dos estudantes de licenciaturas na área eram mulheres, enquanto hoje a percentagem é inferior a 18%. Durante décadas, o número de mulheres que estudavam ciências da computação crescia mais rapidamente que o número de homens. Muitos dos primeiros programadores, os pioneiros, eram mulheres. As coisas mudaram quando, nos anos oitenta, o advento do computador pessoal foi promovido como coisa para rapazes. O rapaz vai para o curso de verão de computadores, a rapariga vai para o ballet. A ideia de que só os miúdos se interessavam por computadores ajudou a obliterar uma geração inteira de potenciais engenheiras e programadoras, e ainda não conseguimos voltar ao que havia antes. Mas trata-se mais de engenharia social do que lacunas biológicas. Essa ideia do manifesto não é muito diferente das teorias que se usavam para justificar a segregação (os negros são mais estúpidos, mais selvagens, é biológico) e a barragem de mulheres numa série de profissões (são mais fracas, neuróticas, irracionais).

Esta noção de que se deve dar espaço à discussão de toda e qualquer ideia absurda que vem à cabeça de uma pessoa não contribui para uma sociedade mais aberta, contribui para legitimar teorias insanas e perigosas. Tome-se o exemplo desta nova série que os criadores de “A Guerra dos Tronos” vão fazer para a HBO: é um mundo alternativo em que o Sul venceu a Guerra Civil e a escravatura de negros continua a ser permitida. Existe um movimento nas redes sociais para impedir que a série seja produzida, e bem, caramba. Quantos filmes e séries exploraram já a escravatura em cem anos de cinema e televisão? De quantos precisamos para perceber que a escravatura foi um dos crimes mais hediondos da história da Humanidade, e que fantasiar sobre a sua continuidade é algo que só pode trazer entretenimento a quem nunca teve antepassados escravizados?

Eis aqui uma ideia: porque não uma série em que a pedofilia é legal e podemos seguir os horrores passados pelas crianças alvo de pedófilos? Não? Demasiado ofensivo? Aí temos. Nem todas as teorias merecem oxigénio. Este manifesto da Google não serviu para coisa nenhuma a não ser legitimar as ideias erradas de que as mulheres são inferiores nos campos das ciências e engenharias e que a diversidade racial é um mecanismo que dá lugares a quem não os merece.

James Damore queixa-se de que a sua demissão é ilegal. A Google tem uma cultura dominada por homens como ele e está a tentar mudar isso, não só porque tem as autoridades à perna mas também porque os tempos mudaram e porque a sua própria experiência demonstra os benefícios da diversidade. Yonatan Zunger, o tal ex-engenheiro da Google, coloca a questão de forma eloquente. “Não apenas quase tudo o que é dito nesse documento está errado, o facto de o ter feito causou um malefício significativo às pessoas nesta empresa, e na capacidade de a empresa funcionar. Ter noção desse tipo de consequências também faz parte do seu trabalho, como faria em qualquer outro emprego.”

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