Opinião

Nenhum vírus traz igualdade

Protestos COVID-19 vírus EUA

Não demorou muito para que as enormes diferenças económicas, sociais e políticas se sobrepusessem à ameaça concreta que este vírus representa

Quando o apresentador da CNN Chris Cuomo foi infectado pelo novo coronavírus, o irmão Andrew Cuomo, governador do estado de Nova Iorque, chamou-lhe “o grande equalizador.” Um vírus que não distinguia entre novos e velhos, ricos ou pobres, urbanos ou rurais, cidadãos ou imigrantes, negros ou brancos.

As ordens de confinamento eram para todos. O perigo era generalizado. Por breves momentos, no início desta pandemia, parecia que estávamos todos no mesmo barco. Uma frente unida contra o vírus mais mortífero em cem anos, batendo palmas aos enfermeiros e colando mensagens de esperança nas redes sociais. Mas todos sabemos que nenhum vírus é capaz de equilibrar um bote que afunda sempre para o mesmo lado.

Não demorou muito para que as enormes diferenças económicas, sociais e políticas se sobrepusessem à ameaça concreta que este vírus representa para toda a gente. Os protestos que se levantaram em várias partes dos Estados Unidos mostraram uma amálgama de descrença nos cientistas, descontentamento com as restrições impostas pelos governantes e assunção desafiadora do risco. Mas também espelharam a profunda desigualdade, a todos os níveis, que existe entre classes. Sendo que a classe média está a caminho da extinção.

Os impactos gravíssimos na economia estão a ser sentidos de forma muito diferente nos vários estratos sociais, mas o maior preditor de reacção é o posicionamento partidário. Quem se posiciona à esquerda pende muito mais para a aceitação da necessidade de confinamento e medidas de precaução como usar máscara e praticar distanciamento social. Quem se posiciona mais à direita tende a rejeitar o tom alarmista dos cientistas e a duvidar que as medidas de confinamento ou precaução resultem em benefícios concretos para a saúde pública.

A hecatombe da economia não resulta apenas, como defendem os menos preocupados com o vírus, das medidas de confinamento. Isso mesmo é visível nas consequências económicas que a Suécia está a sofrer, apesar de não ter encerrado negócios nem ordenado às pessoas que fiquem em casa. O desastre económico advém da pandemia: o medo, os milhões de infectados, os sistemas de saúde assoberbados. É preciso resolver a emergência de saúde para resolver a emergência económica.

O problema é que isto é mais urgente para uns que para outros, e por isso há uma reacção tão visceral pela parte da população que está em crise – os que perderam o emprego, os que não têm recursos para ficarem em casa, os que não têm poupanças para se aguentarem sem rendimentos.

Isso mesmo explicou Fareed Zakaria no seu programa GPS, ao defender que a divisão de posições e crenças em relação à covid-19 se deve à divisão de classes.

“Os lugares de topo por todo o lado estão ocupados pela classe credenciada”, disse, referindo-se aos licenciados, com mestrados e pós-graduações, que são uma minoria na América. Apenas 13% dos americanos têm um grau de mestrado ou superior e apenas 36% têm um bacharelato. “As pessoas sem educação superior sentem uma alienação profunda. Vêem a classe governante a implementar políticas que dizem ser boas para todo o país mas que beneficiam sobretudo a classe dominante.” Por exemplo, os acordos comerciais internacionais e os vistos para emigrantes.

Agora que há 36 milhões de desempregados nos Estados Unidos, muitos olham para os médicos, cientistas, jornalistas e comentadores na televisão a falar de como é importante manter o confinamento com enorme desconfiança. Todos eles têm empregos e até estão a ser mais solicitados agora. Mas o condutor de Uber ficou sem passageiros. O empregado de mesa ficou sem clientes. O operador de grua viu as obras canceladas.

Zakaria mencionou que a maioria dos trabalhadores que estão no quarto salarial superior consegue ficar em casa e continuar a trabalhar. Dos que estão no quarto salarial inferior, apenas 10% tem essa possibilidade. A rejeição dos perigos da covid-19 é, portanto, sobretudo um resultado da guerra de classes, defende Zakaria.

Isto não explica tudo, no entanto. A rebelião do milionário Elon Musk, que reabriu a sua fábrica da Tesla em Fremont sem autorização do condado de Alameda, espelha a tal divisão partidária que filtra tudo neste momento. O mesmo visionário que quer salvar a humanidade levando colónias para Marte não acha que os governos devam tentar salvar os seus cidadãos de um vírus perigoso.

Na guerra ideológica que formata a reacção ao vírus, o menos importante é a ciência. Até porque ela não está a conseguir dar-nos as respostas que precisamos em tempo útil e ninguém sabe qual é a melhor forma de lidar com esta situação.

Daquilo que tenho visto e ouvido à minha volta, a divisão de classes traduz-se no seguinte: quem tem meios e grandes negócios que estão a sofrer quer reabrir rapidamente, sabendo que não correrá riscos pessoalmente, incentivando à revolta dos trabalhadores. Quem tem meios e pode trabalhar de casa ou não precisa de trabalhar porque tem reservas, está muito mais conformado com a necessidade de confinar para controlar o vírus. Quem não tem meios e precisa de trabalhar desesperadamente quer que os outros grupos se lixem.

A verdade é que as classes dominantes, as que têm dinheiro como Elon Musk, deviam chegar-se à frente para ajudar os que ficaram sem rendimentos. Os governos estaduais e o federal deviam fazer bastante mais para garantir que quem está sem trabalho recebe uma compensação mensal imediata e sem perguntas. O Canadá, por exemplo, atribuiu 2.000 dólares a cada cidadão desempregado durante a crise. Há muitos pequenos negócios que ainda não conseguiram aceder a quaisquer apoios, enquanto cadeias de maior dimensão receberam cheques de milhões. A desigualdade que antecedia a pandemia só ficou mais exacerbada.

Ninguém sabe qual a melhor forma de lidar com isto. Mas a responsabilidade de quem está no topo e tem meios é infinitamente maior. O que esta crise prova é que não só nenhum vírus é equalizador como ainda nos distancia mais, economica e socialmente. Para muitos, infelizmente, é a última paragem.

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