No Brasil, ser rico perdeu a graça

A classe C isto, a classe C aquilo. Tudo no Brasil gira em torno
da classe C. O caso não é para menos: ao longo de séculos, só uma
minoria de privilegiados podia subir ao topo do edifício da economia
brasileira. Hoje esse edifício tem elevadores para cima e para
baixo, sobretudo para cima, com a ascensão sócio-económica de
quase 50 milhões de brasileiros.

Aos cronistas resta contar as aventuras da larga fatia da
população que passou da miséria ao consumo em poucos anos. Dos
reflexos nas telenovelas da TV Globo, adaptadas à nova paisagem
social e aos gostos dos emergentes. Das consequências no futebol,
onde o popularíssimo Corinthians de Lula cresce em adeptos, ganha em
títulos e lucra em marketing mais do que os rivais. Dos efeitos nos
aeroportos, aonde acedem milhões de passageiros de primeira viagem.
Do resultado nas lojas, entupidas com as compras dos primeiros e
segundos telemóveis e dos primeiros e segundos automóveis, a
pronto, a crédito, em suaves prestações.

A classe C é a protagonista do novo Brasil. E ponto final.

Mas há outras classes sócio-económicas: além, claro, de uma
ainda tristemente imensa parcela nas classes D, E e F, sobram uns
quantos milhões de brasileiros das classes B e A (de cerca de 2500
euros mensais até Eike Batista, o oitavo homem mais rico do mundo).
Milhões de brasileiros habituados a ter o elevador social à porta
de casa, só para eles e a horas, e que agora chamam, chamam e ele
vem tarde e repleto de emergentes barulhentos lá dentro. Como reagem
as classes A e B à nova classe C?

Em teoria bem: a diminuição das desigualdades torna o Brasil um
país mais apresentável aos olhos internacionais, faz cair a
violência urbana, eleva o país a sexta economia do mundo, aumenta
os lucros das grandes empresas.

Mas e na prática? No dia a dia? A jornalista e “socialite”
brasileira Danuza Leão resume, em artigo de segunda-feira do jornal
“Folha de São Paulo”, o que (boa) parte dessas classes sente:
“Ir a Nova Iorque ver os musicais da Broadway já teve a sua graça,
mas, por 50 reais mensais, o porteiro do prédio também pode ir,
então qual a graça? Enfrentar 12 horas de avião para chegar a
Paris, entrar nas perfumarias que dão 40% de desconto, com
vendedoras falando português e onde você só encontra brasileiros
-não é melhor ficar por aqui mesmo?”

Um inquérito recente revelou que (boa) parte das classes A e B
não se importaria que as marcas fabricassem duas versões para o
mesmo produto, uma para ricos e outra para emergentes. Os
restaurantes de São Paulo são, em média, mais caros do que os de
Nova Iorque, porque os velhos ricos vêem nesse expediente forma de
impedir o acesso da classe C ao espaço.

O progresso ia chegar a Higienópolis, bairro chique paulistano,
em forma de estação de metro, o sonho de milhares de pequenos
trabalhadores que percorrem horas de autocarro para cumprir o caminho
das casas periféricas para os empregos no bairro. Uma petição de
moradores, no entanto, impediu a nova estação, sob o argumento de
que ela facilitaria a chegada de “gente diferenciada” para o
bairro.

Na greve das universidades federais de Julho passado, o governo
teve mais trabalho a conter os protestos dos professores que auferem
12 mil reais mensais (cerca de cinco mil euros) do que os dos
restantes docentes porque enquanto estes se moviam racionalmente por
um mero aumento aqueles moviam-se descontroladamente pela sede de
manter distâncias.

Porque para (boa) parte das classes A e B, se não houver pobres,
ser rico não tem graça nenhuma.

Jornalista

Crónicas de um português emigrado no Brasil

Escreve à quarta-feira

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