Opinião: Pedro Rocha Vieira

No deal – New deal

REUTERS/Henry Nicholls/File Photo
REUTERS/Henry Nicholls/File Photo

Estamos a poucas semanas da fase final e crucial do Brexit onde um cenário de no-deal começa cada vez a ter maior relevância, e é algo que deve ser olhado com atenção.

O Brexit só pode ser compreendido como o culminar de eventos históricos que levaram ao referendo de 2016, muito relacionados com a dificuldade em lidar com a progressiva perda de relevância política e económica de Reino Unido a nível Mundial. Por um lado o Governo Britânico sempre teve interesse nas oportunidades económicas que advinham da integração Europeia, por outro lado, teve sempre uma grande dificuldade em abdicar parte do seu poder e papel no mundo.

Sentimentos contraditórios sobre a União Europeia alargaram para a população Britânica, e durante o referendo um conjunto de factores internos e internacionais e aceleraram o descontentamento que levou ao voto pelo não. A crise de 2009 e as políticas de austeridade, que levaram a um corte de £14.3Bi no sector público britânico, a par com o conservadorismo do BCE tiveram grande impacto e os efeitos da globalização, que provocaram bastante pressão sobre a indústria britânica e aumento das taxas de desemprego, provocaram um comportamento protecionista, acelerado pelo medo da excessiva abertura à imigração por parte da EU.

Desde então as negociações têm sido confusas e caóticas, tendo o tema da fronteira com a Irlanda se tornado num tema crítico para resolver.

Os efeitos do Brexit no trade com a Europa são grandes devido à grande integração das cadeias de valor. A indústria britânica está muito preocupada com o que se vai passar no dia 31 de outubro. Muitas empresas têm vindo a abrir filiais noutros países da UE de forma a mitigar um risco de um no-deal. Portugal pode ser visto como uma opção para estes investimentos dada a sua posição na União Europeia.

Londres é hoje o hub de inovação e empreendedorismo mais relevante na Europa exactamente porque interliga de forma muito eficiente todos os actores relevantes do ecossistema nomeadamente o financeiro, académico, corporativo e tecnológico. É importante que, qualquer que seja o acordo entre o UK e a UE, este permita que estes ecossistemas continuem a trabalhar em conjunto permitindo fluxos de investimento, talento, technologies, entre outros, continuarem a circular. Muitas das boas startups nacionais, como a Farfetch, Seedrs, Uniplaces, Infraspeak, têm uma base forte no Reino Unido, e boa parte do investimento de VC em Portugal vem do Reino Unido.

Os efeitos de um no-deal terão um impacto grande nesta área que teremos que mitigar com políticas de incentivo fortes nomeadamente no que respeita à atração de investimento estrangeiro. Portugal mais uma vez pode ter um posicionamento importante nesta área. Nos últimos anos inúmeras empresas se estabeleceram em Portugal, muitas das quais startups e também algumas capitais de risco. As ferramentas que Portugal tem desenvolvido para a atração de empreendedores, investidores, têm tido bons efeitos, mas temos que comunicar melhor a existência destes incentivos e continuar a construir o ecossistema português de inovação.

A City of London é e espera-se que continue a ser um dos mais relevantes hubs financeiros do mundo. No entanto, muitas instituições financeiras estão preocupadas com os efeitos de um no-deal e estão já a tomar decisões de ter backup offices noutros países europeus de forma a poderem trabalhar com a Europa. Portugal deve ter a ambição de atrair algumas destas instituições desenvolvendo uma estratégia nacional muito focada na colaboração com as FinTechs. Exemplos como os centros da Revolut e da HISCOX em Portugal, que se vieram juntar aos da Euronext, Natixis e BNP Paribas, entre outros, são um bom exemplo do potencial de Portugal como hub global de FinTechs, numa parte da sua cadeia de valor. Mas muito mais poderia ser feito, e Portugal poderia aproveitar melhor o Brexit, para se posicionar, alavancar a sua relação histórica e se consolidar como um parceiro relevante do Reino Unido, atrair investimento, centros de excelência e redes de conhecimento e de startups globais com operações em Portugal.

Acredito que o Reino Unido será sempre um player global relevante e que vai tentar agilizar o comércio global para o UK, pelo que vai ser importante que a UE saiba retirar lições de todo este processo e saiba aproveitar o momento para desenvolver uma narrativa mais sólida e coerente sobre o seu ecossistema de inovação, e que vá no sentido duma maior desburocratização e descentralização da sua decisão, e saiba se posicionar para atrair mais talento global e encontrar novos modelos de comercialização e fluxos económicos como Reino Unido e com o resto do Mundo, explorando as oportunidades da Guerra Comercial Norte Americana com vários países.

Estamos também em vésperas de eleições nacionais, pelo que espero que qualquer que seja o Governo, Portugal seja capaz de promover estratégias de competitividade mais definitivas, assentes cada vez mais no estímulo não condicionante e na atração da capacidade criativa e empreendedora dos Portugueses e daqueles que quiserem cá viver.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
Ilustração: Vítor Higgs

Azeites e vinhos portugueses escapam a castigo de Trump

Ilustração: Vítor Higgs

Azeites e vinhos portugueses escapam a castigo de Trump

(REUTERS/Kevin Coombs)

Acordo para o brexit com pouco impacto para Portugal

Outros conteúdos GMG
No deal – New deal