No país das maravilhas

No país das maravilhas, não há crise energética porque o abastecimento é feito em mercados alternativos àqueles a que recorre o resto da Europa. No país das maravilhas, não há falta de coisa nenhuma porque as cadeias de abastecimento não falham e os preços estão debaixo de olho. No país das maravilhas, há apoios para as famílias mais pobres e linhas de crédito a chamar pelas empresas cujos negócios se querem ver florescentes. No país das maravilhas há crescimento e superavit e nem sequer é preciso contar com a benevolência dos guardiães das regras europeias, que anunciaram a continuidade da flexibilidade nos patamares limite do défice e da dívida.

No país das maravilhas, claro, não se olha aos efeitos indiretos da crise energética que está a deixar-nos de rastos, entre a escalada dos preços dos combustíveis com que famílias e empresas têm de lidar, pondo em risco o nível de vida dos cidadãos e a sobrevivência dos negócios, obrigados a fazer face a custos de produção impossíveis e a escolher entre transferir parte desse fardo para quem compra ou parar de produzir e despedir. Faz-se de conta que a inflação que fez disparar os preços de tudo vai passar em breve, num passe de magia, e não infetará as contas públicas. Desvia-se os olhos das famílias que têm tido de se adaptar à força, eventualmente escolhendo entre pagar a luz ou comprar o que precisam no supermercado, e considera-se um ato de generosidade imensa pagar metade de uma botija de gás a quem não tem sequer dinheiro para viver. E acredita-se com toda a fé que Portugal é um exemplo para a Europa.

A escuridão do outro lado do espelho, infelizmente, deixa-nos cada vez menos margem para fingir que os bons resultados obtidos nada têm que ver com o dinheiro que jorrou de Bruxelas ou com as condições excecionais criadas nos últimos dois anos para fazer face à pandemia.

O programa de compra de dívida do BCE foi encerrado, a subida das taxas de juro foi sinalizada para daqui a momentos, já no arranque do verão, a economia está brutalmente ensombrada por uma inflação galopante que já ninguém - exceto no país das maravilhas - acredita que é aguaceiro e não tempestade.

Um mês de guerra bastou para transformar o vaidoso superavit português em défice, a dívida pública é das maiores do bloco europeu, a despesa do Estado tem aumentado à boleia de apoios pouco eficazes e de uma função pública que engorda a cada mês, a inflação galopante está a deixar de rastos as finanças de famílias e empresas e as linhas de crédito que deviam ajudar o tecido económico - e, por consequência, os trabalhadores a manter os rendimentos familiares - ficam meses na gaveta ou vazias de pretendentes porque não se adequam minimamente aos problemas reais.

No país das maravilhas, ainda ninguém reparou que há cada vez mais cabeças a ser cortadas e que a luz que se vê ao longe pode mesmo ser o comboio de uma nova crise a ganhar velocidade no túnel.

Sobe...

Rita Marques, secretária de Estado do Turismo
O Banco de Portugal prevê que as receitas do turismo sejam neste ano de 16 mil milhões de euros, o ministro da Economia acredita que podem chegar mais adiante, aos 18 ou 19 mil milhões, e atingir os 27 mil milhões em 2027. Agora imagine-se o que poderia ser com um ministério a cuidar dele e um aeroporto de Lisboa a funcionar como um verdadeiro hub, sem os estrangulamentos de turistas que chegam diariamente a uma Portela esgotada. A atividade turística continua a ser a galinha dos ovos de ouro da nossa economia, mesmo que muitas vezes maltratada por regras cegas e adiamentos sem sentido.

... &Desce

Hugo Martins, presidente da câmara de Odivelas
O senhor autarca de Odivelas descobriu a fórmula secreta para melhorar os serviços do Estado: acabar com o capitalismo e com esses malandros que se dedicam à iniciativa privada e contagiam o resto do sistema com os seus salários valorizados e ofertas generosas. Dizia nesta semana, cheio de propriedade, que de nada servia valorizar a carreira dos médicos para os atrair ao SNS, porque depois vinha o privado e cobria a oferta e lá se iam eles. Não disse, mas não é difícil entender o que deve ver como um sonho. Basta ouvi-lo para o perceber. Era acabar-se com quem quer pôr médicos, professores ou outro profissional qualquer a ganhar mais, que a iniciativa privada é que destrói este país. Um modelo soviético é que era, livre dos bandidos que promovem a economia de mercado, a valorização dos melhores profissionais, a ambição e o lucro. É pôr-se tudo pela mesma medida, numa massa indistinta às ordens do Estado. Não estudaram de graça? Pois então que retribuam o favor dedicando-se a trabalhar de graça ou perto disso. Perfeito perfeito, era se pudéssemos pô-los a receber em senhas que só podiam gastar onde o Estado decidisse...

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