No princípio, aero-caos...

Falta de recursos e oferta para responder à procura e salários comprimidos ameaçam a paz social e retoma futura, provavelmente com maior estrondo em 2023.

O caos nos aeroportos não é uma originalidade de Portugal, é um problema maior e muito mais profundo do que parece. Os bloqueios são só o princípio, um sinal antecipado, um indicador avançado, de algo mais severo que pode vir aí e derrubar a economia europeia como um todo.

O estado de bloqueio e incerteza não vai ser um exclusivo do setor aeroportuário. Outros setores já têm ou vão sofrer o mesmo tipo de problemas -- falta de recursos e oferta para responder à procura, ameaçando a retoma, provavelmente com estrondo em 2023.

Depois de dois anos de pandemia em que as empresas foram empurradas para uma alta contenção nos investimentos, nas contratações, nos salários. Hoje que a procura regressou percebe-se que economias e muitos setores de atividade (o aéreo é um bom exemplo) não estão preparados.

Foram apanhados na curva. E vão estar preparados? Valerá a pena com guerra, inflação explosiva e uma nova crise no horizonte? Ou vão tentar manter-se à tona a fazer mais com menos recursos até tudo isto rebentar outra vez?

Sem querer minimizar as implicações destrutivas que se fazem sentir nas fronteiras aéreas e que estão a complicar a vida de milhares, talvez já milhões, de pessoas em Lisboa e hubs importantes da Europa, como Amesterdão, Berlim, Bruxelas, Munique, Paris, Londres, Estocolmo, parece que são as cicatrizes deixadas pela pandemia que ainda doem, não estão saradas.

Portugal é um caso muito visível deste problema na medida em que era e continua a ser um polo relevante de atração de turismo em massa e que, mais do que outros países, experimentou nos últimos dois anos uma verdadeira montanha-russa na atividade económica.

É um caso onde os problemas herdados de dois anos de crise pandémica são mais evidentes, mas o resto da Europa não está livre dos mesmos constrangimentos que bloqueiam as fronteiras aéreas e, ato contínuo, vão contaminar outros setores das economias, alimentando um ambiente que, mais tarde ou mais cedo, começará a ser de estagnação ou mesmo recessivo.

O turismo esteve praticamente interrompido durante meses por causa das medidas de confinamento e de restrições sobre viagens, negócios, mobilidade de passageiros.

Durante esse tempo, muitas empresas ajustaram fortemente os seus quadros de pessoal e as folhas salariais.

Apesar dos subsídios públicos para manter empregos, muitas empresas não aguentaram e faliram, outras tiveram mesmo de emagrecer para conseguir ultrapassar estes tempos duros de provação. Nunca recuperaram realmente desses tempos sombrios.

Retoma com recursos de pandemia

O caos nos aeroportos reflete algo que é pouco referido: a atividade económica até já pode ter recuperado para os níveis pré-pandemia, no entanto, o ajustamento feito nos empregos, nos salários e nas condições de trabalho durante os últimos dois anos marcados pela covid não terá sido totalmente revertido. Pode ser por isso que muitas coisas, que dantes eram normais, estão hoje a encravar.

O que significa isto? Quer dizer que muitas empresas, privadas e públicas, estão atualmente a operar num ambiente em que a recuperação está em curso, há procura, ainda há sinais de que esta pode ganhar alguma força adicional, mas isto acontece sem as companhias terem realmente ajustado e em conformidade com esta fase do ciclo os seus recursos humanos e operacionais. Chama-se fazer mais, com menos. Retoma com menos emprego e com muita contenção salarial.

Por um lado, são as empresas a tentar recuperar o que ficou por lucrar na crise pandémica, por outro, pode ser já a reação conservadora e uma manifestação de receio sobre uma nova crise que se pode abater sobre a Europa na sequência da guerra na Ucrânia que começou em fevereiro e dura assim há quatro meses.

Inflação muito alta já temos, taxas de juro a subir também. Falta o resto: os primeiros solavancos e bloqueios à atividade económica, que podem acabar em estagnação e, no pior dos cenários, numa nova recessão.

O panorama não é bom e na Europa é pior do que noutros lugares do mundo. Tome-se o exemplo dos aeroportos e do transporte aéreo de passageiros.

Retoma com menos emprego e contenção salarial resulta no que sabemos: contestação laboral para exigir melhores salários e condições de trabalho, paralisações por falta de pessoal, greves, filas de espera intermináveis, bagagens perdidas, desmaios, horas a fio sem poder ir à casa de banho.

Segundo um estudo da consultora Cirium, especialista em aviação, citado pela AP, em junho, houve quase 2.000 voos cancelados em apenas uma semana nos principais aeroportos da Europa continental. Schiphol (Amesterdão, Holanda), o maior aeroporto da Europa, foi responsável por quase 9% dos voos abortados. Outros 376 voos foram cancelados a partir de aeroportos do Reino Unido, com Heathrow a representar 28%, revelou a Cirium citada pela mesma agência.

Lagarde pede aos sindicatos que lhe facilitem a vida

Apesar dos constrangimentos nas viagens aéreas, esta semana que passou, dezenas de participantes estrangeiros no encontro anual do Banco Central Europeu, o Fórum BCE, conseguiram chegar a Sintra, onde estiveram uns dias.

A presidente do BCE, Christine Lagarde, que há uns meses dizia que a inflação alta devia ser apenas uma coisa temporária, já admite que não vai ser assim. Primeiro, porque a inflação da zona euro já vai em quase 9%. Portugal, que esteve abaixo da média europeia durante algum tempo, também já descolou e regista uma inflação de 9% também.

Lagarde também está inquieta porque a inflação muito agressiva gera tensões sociais e alimentam o descontentamento já que o poder de compra dos salários entra em rápido declínio.

Isso faz com que Lagarde tema os chamados efeitos de segunda ordem, que é quando os trabalhadores lutam contra o empobrecimento no trabalho, puxando por atualizações salariais maiores e melhores.

A líder do BCE acha que os trabalhadores e os sindicados devem ir com calma aqui para não gerar ainda mais inflação e evitar que isto se torne num ciclo vicioso. No fundo, para evitar a tarefa de Lagarde e do BCE que é controlar a inflação, mantendo-a nos 2%.

No Parlamento Europeu, há duas semanas, a chefe máxima do BCE avisou sindicatos e empregadores: devem garantir que os salários negociados para 2023 não acompanham a inflação deste ano de modo a evitar os tais "efeitos de segunda ordem" sobre os preços.

Para os bancos centrais da zona euro, aumentar salários além do nível de segurança (no caso da zona euro são os referidos 2%) é problemático porque empurra o BCE para aumentos ainda mais pronunciados das taxas de juro com o objetivo de arrefecer os preços. Problema: isto também tende a enregelar a economia real.

Se a dose da subida de juros for grande, a economia pode não aguentar, acabando por entrar em estagnação ou mesmo recessão.

O BCE diz agora que "ainda estamos longe", mas admite que esse tipo de crise (estagflação) é um cenário que já não se pode ignorar. Citou-o no último boletim económico.

Assim, em jeito profilático, Lagarde recomenda aos sindicatos e trabalhadores europeus que não puxem mais pela inflação.

No fundo é como dizer: aguentem as perdas de rendimento disponível que possam ocorrer e as horas sem fim à vista nas filas de espera, se tiver de ser.

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