Opinião

Nobel, Oscar e Copa

(Foto: Lucas Figueiredo/CBF)
(Foto: Lucas Figueiredo/CBF)

O Brasil, quinto país do mundo em área e em população, nunca ganhou um prémio Nobel, ao contrário do minúsculo Portugal de Egas Moniz e José Saramago. O Brasil, apesar de ser uma referência mundial no audiovisual, nunca venceu um Oscar, ao contrário da vizinha Argentina de A História Oficial e O Segredo dos Seus Olhos.

Neste contexto, e apesar de dar cartas no mundo em tantas áreas, da publicidade ao marketing político, da cirurgia plástica à arquitetura, da moda à música, é o futebol, um fenómeno ainda mais abrangente do que os prémios sueco e californiano, que funciona como pérola de um país que podia ser uma potência em tanto mas que, por uma razão ou por outra, ainda só o é em tão pouco.

Seria por isso de esperar que o futebol fosse tratado como um diamante raro no seu único pentacampeão mundial. Mas não. Pelo contrário. Aliás, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) está entregue a vigaristas de fazer corar de vergonha a classe política do país.

Exemplos? Quatro nomes: João Havelange, 14º presidente da entidade, foi homenageado com a presidência honorária da FIFA e com o nome de um estádio no Rio de Janeiro, mas sofreu a humilhação suprema de pouco antes de morrer ver o organismo mundial e o governo fluminense retirarem-lhe as honras por corrupção e outros crimes.

O seu genro, Ricardo Teixeira, 17º chefe da CBF, renunciou ao cargo por corrupção e está debaixo do olho vivo do FBI no escândalo da FIFA.

Sucedeu-o José Maria Marin, o 18º, hoje condenado e preso em Nova Iorque, no culminar de uma vida de crimes, alguns na esfera política.

O 19º presidente foi Marco Polo Del Nero, dirigente que não sai do Brasil por medo de ser preso e cujo mandato a FIFA suspendeu por envolvimento em esquemas corruptos.

O próximo Brasileirão será iniciado já sob o controle do testa de ferro de Del Nero, um fiel servidor da ditadura militar que na qualidade de presidente da Federação Paraense de Futebol foi acusado de favorecer uma agência de viagens de um amigo, de gastar à volta de 450 mil euros para estimular o crescimento dos clubes de província do estado sem ter demonstrado qualquer resultado e de submeter as contas da federação a um contabilista suspenso de toda a atividade pela Comissão de Valores Mobiliários.

A gestão do Coronel Nunes, como gosta de ser chamado o senhor em causa apesar de a denominação nos transportar ao século XIX, acabou de decidir duas coisas que, como o seu nome, evocam o século XIX; recusou o Vídeo Árbitro (VAR), apesar do sucesso em Portugal e não só, e aprovou a venda do fator casa. Sim, caro leitor europeu, leu bem: um clube pode aceitar jogar noutro ponto do país, inclusive aonde o seu rival possa até ter mais adeptos, em troca de dinheiro.

Sucede que apesar da imprensa e do público em geral criticarem as medidas, quem as podia combater, os clubes, foi cúmplice das duas decisões (sete deles, registe-se, votaram vencido pelo VAR). E são-no em troca do dinheiro da TV Globo, velha sócia da CBF.

Agora que o selecionador Tite resgatou o Brasil, a aposta da CBF é na conquista de mais uma Copa já na Rússia que maquie o monstrengo, anestesie o povo e cale as críticas, enquanto as bases do futebol brasileiro, os seus clubes e as suas competições, definham em silêncio.

Quando será então que o futebol brasileiro se vai modernizar de vez e passar a ser tratado como um diamante? É melhor sentar-se e esperar pelo Nobel ou pelo Oscar.

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