Opinião: António Saraiva

Novas forças e novas debilidades

Exportações recuperam no primeiro trimestre

Precisamos de mais investimento, para aumentar o stock de capital, tão necessário para alcançar níveis de produtividade mais elevados.

Em 2018, o PIB português ultrapassou finalmente o nível atingido em 2008. Isto significa que precisámos de cinco anos (de 2014 a 2018) para recuperar o que perdemos, nos cinco anos anteriores (de 2009 a 2013), em termos de geração de produção e rendimentos.

Foi uma década perdida? Do ponto de vista quantitativo, sim. No entanto, a economia é agora estruturalmente diferente, com novas forças, embora também com novas debilidades.

O peso dos setores exportadores de bens e serviços (onde se destaca a indústria e o turismo) é hoje substancialmente maior, numa economia mais internacionalizada e que ultrapassou o desequilíbrio estrutural das contas externas que tanto condicionou o seu desenvolvimento.

Em contrapartida, em resultado da sua queda abrupta nos anos de crise, o peso do investimento no PIB está ainda longe de ter recuperado para os seus níveis históricos, sendo o segundo mais baixo da União Europeia. Precisamos de mais investimento, para aumentar o stock de capital, tão necessário para alcançar níveis de produtividade mais elevados.

Temos, também, uma economia mais endividada, apesar dos progressos feitos pelas empresas privadas, desde 2013, e, mais recentemente, pelo setor público.

Houve avanços na redução do défice público. Saídos do Procedimento por Défice Excessivo e restabelecido o rating da República no nível de investimento, gozamos agora de uma credibilidade acrescida nos mercados financeiros internacionais. Esta maior credibilidade tem-se refletido nas taxas de juro da dívida pública e abriga-nos, agora, do contágio do disparo no prémio de risco da dívida italiana.

Contudo, dadas as escassas mudanças de fundo ao nível do Estado e das Administrações Públicas, o esforço de consolidação orçamental recaiu excessivamente sobre a carga fiscal elevando-a para níveis demasiado altos, que pesam sobre a competitividade das empresas e tornam o país menos atrativo. Temos agora uma carga fiscal no seu máximo histórico em Portugal – 34,7% – superior em mais de 3 pontos percentuais à que se registava em 2008.

O peso da despesa pública corrente no PIB, por seu lado, é hoje praticamente idêntico ao que se registava há uma década (0,7 pontos percentuais a menos).

Depois de um crescimento robusto em 2017, o ano que agora acaba foi marcado por um nítido abrandamento da atividade económica. Abrandamento que, de acordo com a generalidade das projeções se prolongará nos próximos anos.

É preciso, por isso, contrariar os fatores que determinam esta tendência, potenciar as novas forças da economia, combater as suas novas debilidades, ultrapassar os bloqueios que ainda travam o crescimento da nossa economia.

Para que o relançamento económico, de cariz marcadamente cíclico, ganhe uma natureza mais estrutural e sustentável, é preciso apostar no investimento e no capital humano como fatores potenciadores do crescimento no longo prazo, sustentado por ganhos de produtividade.

São estes os desafios para o futuro, a começar pelo ano que agora começa.

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