Novo ano, novas preocupações!

Face à evolução da inflação, a pressão para um aumento das taxas de juro é uma realidade fortemente expectável, o que nos faz pensar que o novo ano não começa da melhor forma.

Há alguns meses que o Banco Central Europeu (BCE) tem tentado - e bem - gerir as expectativas, ao referir que a subida dos preços seria temporária. Contudo, nas suas mais recentes declarações, Christine Lagarde sublinhou que o aumento dos preços na Zona Euro é fonte de grande preocupação, classificando-o como um assunto levado "muito a sério".

Em dezembro, o valor da inflação na Zona Euro estava já nos 5%, bem acima da referência de 2% do BCE, que poderá ver-se obrigado a antecipar e acelerar o levantamento dos estímulos monetários, em linha com o que já sinalizou a Reserva Federal dos Estados Unidos.

Esta semana, os mercados reagiram, refletindo-se no aumento das taxas de juro soberanas de longo prazo. Exemplo dessa reação foi a evolução da yield associada às obrigações do tesouro da Alemanha a dez anos, que sofreu uma inversão para valores positivos, após ter estado em terreno negativo desde maio de 2019.

Subscrevo a preocupação da presidente do BCE, como sendo um assunto a levar muito a sério, pois a pressão dos bancos centrais para a subida das taxas diretoras terá impactos muito negativos para países como Portugal, com uma dívida pública que ultrapassa os 270 mil milhões de euros, face a um PIB de 200 mil milhões de euros em 2020 (ainda não temos os valores para 2021).

Significa que, para além da situação de fragilidade, fruto dos impactos da pandemia, amplificados pelo forte agravamento dos custos operacionais, nomeadamente em resultado dos aumentos muito significativos dos custos energéticos, das matérias-primas e dos transportes, as empresas terão ainda que incorporar nas suas contas o expectável agravamento dos custos financeiros, atendendo a que os empréstimos bancários assumem uma elevada fatia na composição dos financiamentos obtidos pelas empresas portuguesas.

É certo que existem diferenças consoante o segmento dimensional e o setor de atividade, mas deixo apenas dois exemplos que ilustram bem a elevada fonte de preocupação: no segmento das micro, pequenas e médias empresas os empréstimos bancários representam quase metade (48,6%) dos financiamentos e se considerarmos este mesmo segmento para a indústria transformadora a proporção sobe para 68,5%.

Isto só quer dizer que as políticas públicas devem estar muito atentas no apoio à manutenção da capacidade produtiva.

Luís Miguel Ribeiro, presidente da Associação Empresarial de Portugal (AEP)

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