Novos adamastores

A inflação continua a escalar, entre os efeitos da guerra e os de uma transformação energética apressada à força de castigos; o crescimento do país arrefece, apesar da maior injeção de dinheiro que Portugal alguma vez recebeu; o desemprego mantém-se baixo, muito graças a formações e baixas por doença, mas também à boleia da maior crise de mão-de-obra que alguma vez vivemos; Bruxelas conseguiu (como se esperava) passar o corte no consumo de energia que vai dificultar ainda mais a produção das empresas e diminuir o conforto das famílias; os juros começaram a descolar do zero numa tentativa de travar uma taxa de inflação que já está em Portugal em máximos de 30 anos, acima dos 9%, ameaçando a já muito debilitada capacidade dos portugueses de pagar as contas e cumprir os compromissos ao final do mês.

Não, não está tudo bem. E se a resiliência nacional é potenciada pelas cada vez mais frequentes dificuldades que enfrentamos, a falta de perspetivas e de uma luz ao fundo do túnel vai empurrar os mais capazes para longe, por mais força e vontade que tenham de ajudar a melhorar o que é seu.

Vencer o Adamastor é parte intrínseca do que somos, mas se das Tormentas nunca se faz Esperança, até os mais bravos perdem a coragem.

O brio, a teimosia de ficar e lutar, a resiliência cujo nome damos a um programa de recuperação sem verdadeiramente disponibilizar os instrumentos para que se materialize uma recuperação têm limites na parede da inflexibilidade surda de quem persiste no erro esperando resultados diferentes.

Num país estruturalmente defeituoso, onde se insiste em derrubar o que funciona e atacar os sintomas em vez de enfrentar corajosamente a doença, não pode haver melhorias. É preciso empenho e esforço coletivo em prosseguir resultados, entendendo que valores são imprescindíveis, que pedras há que remover do caminho, que apostas levam ao êxito e que falsas ilusões de melhoria são apenas cantos de sereia a conduzir-nos ao precipício. E só é possível contorná-los dando ouvidos a quem está no terreno, vendo pelos olhos de quem está dentro da tempestade, andando nas pegadas de quem sabe o caminho de cor.

Portugal, os portugueses, têm coragem, têm capacidade, mas não chegarão longe sem velas que lhes permitam tirar partido da mais ténue brisa para alcançar bons portos. Içá-las será suportar a viagem que a todos mostrará novos destinos, mesmo que a eles aportemos em frágeis barcaças. Rasgá-las será condenar um país à eterna deriva, à mercê dos elementos e da caridade alheia até definharmos por completo.

É altura de escolher o destino que ambicionamos para o país. Certos de que essa escolha ditará o que será de nós e o que dirão de nós os que se nos seguirem. Todo o esforço tem limites. Mas se prosseguirmos juntos um mesmo objetivo seremos mais fortes e mais capazes de vencer as batalhas que ainda muitos tentam fingir que são inescapáveis.

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