Novos tempos para a Inovação e o Empreendedorismo

Leciono atualmente uma cadeira de Empreendedorismo, onde procuro passar aos meus alunos competências empreendedoras, que possibilitem a identificação de ideias de negócio com potencial e a sua transformação num plano de negócios, que se venha a constituir como um guião para o surgir de uma nova empresa. Para tal, desafio-os a encontrarem uma ideia economicamente sustentável e a estimar inputs e outputs do modelo de negócio para projeção dos cash-flows do projeto, com o objetivo de medir a sua viabilidade financeira.

Tento ainda incutir-lhes a ideia de que os empreendedores são provocadores de mudança, ou de rutura, criando empresas (startups), novos negócios ou conceitos, dentro de organizações (intra-empreendedorismo) ou na sociedade (empreendedorismo social).

Como existem vários tipos de empreendedores, com razões várias para constituir uma empresa, existem também vários tipos de startups, desde as startup "estilo de vida" e "pequenos negócios" a startups que visam criar valor em larga escala, como a Google, o Facebook e o Twitter. Nesta última classificação estão as startups unicórnio (empresas avaliadas em mais de mil milhões de dólares), sendo que em Portugal apenas existem 4: a Farfetch, a Talkdesk, a OutSystems e a Feedzai. São empresas de raiz portuguesa que em conjunto valem cerca de 25,8 mil milhões de euros.

Juntas, estas quatro startups de grande crescimento, captaram investimentos que ascendem a cerca de 2,2 mil milhões de euros e já valem quase dois quintos do PSI-20, o principal índice da bolsa portuguesa. No entanto, destes unicórnios portugueses, apenas a Feedzai mantém a sua sede em Portugal.

Porque é que tudo isto é importante? Porque o tamanho importa.

Um dos principais problemas das empresas portuguesas é a sua baixa capitalização e o seu baixo nível de internacionalização. Este problema está correlacionado com outro: a reduzida dimensão das empresas portuguesas.

É hoje um entendimento generalizado que a dimensão e o crescimento empresarial melhoram a produtividade e o desenvolvimento da economia e por isso é crítico que se trabalhe para aumentar a dimensão e a escala das empresas portuguesas, para que sejam mais competitivas.

Por isso, sempre discordei da redução do fenómeno do empreendedorismo à realização de uma feira anual paga com dinheiros públicos, com ganhos espúrios para o turismo de Lisboa e quase nenhuma atratividade de empreendedores que se fixem por cá pós-evento (os mais de 2 mil visitantes deste evento vêm a Lisboa como iam a Dublin e irão a qualquer outro destino onde o evento se realize). É uma visão muito redutora daquilo que a cidade e o país precisam em termos de criação de riqueza e promoção de uma sociedade mais justa. Não precisamos apenas de visitantes, precisamos de criadores de riqueza e de empregos

Imagine-se o que seria pegar nos 10 milhões de euros investidos neste evento e investi-los na capitalização e financiamento de verdadeiras e boas ideias de negócio. Ou dar condições fiscais, de infraestruturas ou de recursos para I&D, para ajudar a desenvolver novos unicórnios em Portugal e, dependendo das fases de desenvolvimento das startups, evitar que estes se tenham que deslocar para países e cidades mais atrativas do ponto de vista da maximização dos investimentos.

Não quero acabar com esse tipo de eventos, mas a visão destas matérias tem que ser mais abrangente, agregadora e estratégica. Estas iniciativas não podem ser o fim, nem sequer o princípio do fim, como dizia Churchill, mas sim fazer parte de algo maior.

Por isso, gostei de ouvir a proposta do candidato à Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, sobre a reconversão do projeto do Hub do Beato numa fábrica de unicórnios, tornando este Hub no grande polo agregador de iniciativas privadas e públicas, de promoção do empreendedorismo interligado com as estruturas de financiamento e transformando-o numa estrutura orientada para o apoio à criação e crescimento sustentado de empresas com elevado potencial.

Mais gostei de saber que esta proposta vinha acompanhada da aceitação do Nuno Sebastião, CEO e fundador da Feedzai, do convite para ser o Alto Comissário da Tecnologia e da Inovação da cidade de Lisboa. Como dito acima, a Feedzai é o único unicórnio de raiz nacional com sede em Portugal e por isso são ainda mais relevantes os seus contributos para o desenvolvimento do empreendedorismo e da inovação em Lisboa e, consequentemente, em Portugal. Dificilmente se encontraria uma melhor escolha.

Novos tempos se adivinham para a inovação e empreendedorismo.

Francisco Pinheiro Catalão, Professor universitário e doutorado em Gestão

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