Opinião

Novos ventos na Alemanha?

Angela Merkel, chanceler da Alemanha. Fotografia: EPA/FELIPE TRUEBA
Angela Merkel, chanceler da Alemanha. Fotografia: EPA/FELIPE TRUEBA

A Alemanha tem neste momento em mãos um ambicioso plano em defesa do clima

É conhecida a propensão que os governos têm para se endividar quando pretendem pagar despesas públicas. Perante a alternativa de aumentarem impostos, essa é a maneira politicamente menos dolorosa, no curto prazo, de se financiarem. Assim acontecendo na maioria dos países, com excessos conhecidos, há, contudo, pelo menos uma reconhecida exceção: a Alemanha. A opinião pública alemã preza de há muito os orçamentos equilibrados e abomina o endividamento e não surpreende, assim, que a macroeconomia decantada no pensamento das suas elites políticas e económicas, traduza essa preferência. Algumas virtudes que possam advir desse modo específico de financiamento, nomeadamente as sublinhadas por Keynes, têm passado ao lado nas opções habitualmente consideradas no debate germânico, o que tem motivado críticas oriundas de variados quadrantes.

Nada há, porém, como a pressão das circunstâncias. De acordo com o Financial Times, a desaceleração recente da economia alemã, após uma década de assinalável crescimento, reintroduziu inesperadamente o tema na discussão da política económica. A opinião pública e o seu reflexo na esfera política parecem (finalmente) começar a admitir a possibilidade de benefícios decorrentes de um abandono estrito do equilíbrio orçamental através de um impulso expansionista, financiado por dívida. Se assim for, trata-se de uma boa notícia. As taxas de juro situam-se em níveis historicamente baixos e tudo indica que assim se manterão no próximo futuro, ou seja, o custo do financiamento é irrisório, tanto mais que é comparativamente baixo o nível inicial de dívida pública. Por outro lado, há despesas de investimento em infraestruturas de há muito reconhecidas como necessárias e até urgentes. A despesa agregada alemã poderia, assim, beneficiar deste impulso estabilizador, tal como indiretamente beneficiariam também as restantes economias da zona euro, facilitando o ajustamento pós-crise que ainda defrontam.

Há, contudo, para além das razões macro, uma importante razão adicional para apoiar aquela possibilidade. É que a Alemanha tem neste momento em mãos um ambicioso plano em defesa do clima (cerca de 30 mil milhões de euros nos próximos anos, segundo o FT). Os benefícios de um programa de investimento público desta natureza, para já não falar em outros, estendem-se seguramente às gerações seguintes. Faria sentido, assim, que o seu custo viesse a ser igualmente partilhado pelos contribuintes futuros e a melhor maneira de o fazer seria através do recurso ao endividamento hoje. Mesmo para quem continuadamente se preocupe com a necessidade de disciplina orçamental, parecerá apropriado nestas circunstâncias específicas a ideia do abandono do equilíbrio orçamental, seja pelas convencionais razões keynesianas seja também, neste caso, por razões de equidade intertemporal.

Professor de Economia, Nova SBE

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