O Ambiente só muda com os hábitos

São ambiciosas e justifica-se que o sejam as metas ambientais europeias, Portugal incluído. E nelas a regra de reduzir consumos, reutilizar embalagens e reciclá-las em fim de vida são tão fundamentais quanto é urgente encontrar motivação para que quem ainda não entrou neste barco comece rapidamente a remar. Mas dar passos mais longos do que as pernas nunca é boa ideia - e nisso, infelizmente, somos exímios.

Da mesma forma que conseguimos ser exemplo na inovação e na capacidade de absorvermos as melhores práticas, Portugal tem o péssimo hábito de tomar dores que não são suas e esforçar-se tremendamente por encontrar solução para problemas que não tem. E nesse caminho, perde boas oportunidades de se concentrar no que verdadeiramente importa e precisa de alternativa. Impressionados com a vida marinha apanhada em armadilhas de plástico e com as ilhas de lixo que se formam em mares paradisíacos, declarámos - e bem - guerra à poluição. Mas em vez de estudarmos o tema, de vermos onde e como combatê-la, importámos dores alheias e precipitámo-nos em soluções que por vezes se revelam mais problemáticas. Como as palhinhas de papel que se desfazem muito antes de a bebida terminar (não podia antes deixar-se de usar palhinhas exceto em casos clínicos?) ou os copos de cartão que muito mais dificilmente chegam a ser reciclados do que os de plástico (cujo aproveitamento era de quase 100%).

Essa mesma lógica levou o governo a criar legislação que penaliza quem compra carros híbridos para incentivar a opção pelos elétricos, esquecendo que essa lei - proposta pelo PAN com base em estudos feitos ao mercado automóvel do Reino Unido e aos hábitos dos britânicos - tem aqui muito mais potencial de empurrar os consumidores para automóveis a combustível tradicional. A precipitação, a falta de conhecimento e a cópia simples tem o efeito exatamente oposto ao pretendido. Da mesma forma que impor penalizações às embalagens de plástico terá a simples consequência de pôr os portugueses a pagar mais 30 cêntimos por embalagem em vez de levá-los a evitar recipientes de utilização única.

A proteção do ambiente depende da mudança de hábitos, de conseguirmos mudar e enraizar melhores comportamentos na população. Incentivos positivos, transparência nos meios e efeitos de cada medida e a capacidade de mostrar a diferença que somos capazes de obter com os gestos mais simples vale mil vezes mais do que criar multas e castigos para quem atira beatas para o chão ou deita garrafas e latas no lixo comum. Só teremos verdadeira mudança quando esses atos envergonhem quem os pratica.

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