Opinião: Pedro Rocha Vieira

O ano do Porco terra (um ano crítico)

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Celebramos também os 50 anos da ida à Lua, os 30 anos da queda do muro de Berlim, e os 150 anos do nascimento de Calouste Sarkis Gulbenkian.

Começou nesta semana o ano do Porco que, no zodíaco chinês, é um signo associado à generosidade, à bondade e ao cumprimento do dever, privilegiando as tradições e a estabilidade, e que no seu elemento terra é muito materialista e determinado, não se poupando a esforços para alcançar as suas metas e a concretizar projetos graças à estratégia, visão e capacidade de negócio.

O ano de 2019 é de mudanças e de início de novos ciclos, o que traz consigo um misto de esperança e apreensão, pois o ser humano tem sempre alguma dificuldade em lidar com a incerteza e com o novo, capacidade determinante para conseguirmos sobreviver num mundo cada vez mais acelerado e volátil.

Este ano começou marcado pela guerra comercial entre os EUA e a China e com as eleições no Brasil, que tem criado um espetro entre o histerismo e otimismo económico no nosso país irmão, e tivemos umas eleições conturbadas na Venezuela. Vamos ter ainda eleições na Índia, na Ucrânia, em Moçambique, no Canadá, em Israel, e na Argentina e o Japão terá um novo imperador.

Em maio, as eleições europeias definirão um novo presidente da CE e do BCE, o que poderá ter uma implicação nas políticas macroeconómicas e monetárias da Europa, e por fim vamos ter eleições legislativas em outubro, que podem alterar o equilíbrio político em Portugal.

Ah, já me esquecia do brexit, que vai afetar aquele que é um dos nossos principais parceiros económicos, e que começa a ser um processo um pouco constrangedor para todos.

Celebramos também os 50 anos da ida à Lua, os 30 anos da queda do muro de Berlim, e os 150 anos do nascimento de Calouste Sarkis Gulbenkian, o que nos deve fazer pensar sobre o que devem ser as novas causas e desígnios da nossa sociedade e refletir sobre o que pretendemos enquanto exemplos para a nossa sociedade, uma miragem em Portugal.

Apesar do ligeiro arrefecimento, Portugal continua a viver um dos principais períodos da sua história, pelo que devemos aproveitar este contexto para fazer como o porco terra e construir de forma estratégica e incansável o nosso futuro.

Temos de nos focar fortemente no crescimento, na redução da dívida, na atração de investimento estrangeiro, na realização de investimento produtivo, baseado em tecnologia e em marcas fortes internacionais com alto valor acrescentado, e de investimento público de qualidade e sustentável. E, acima de tudo, apostar na educação e na requalificação do nosso capital humano, sem esquecer a luta contra a desigualdade, promovendo a diversidade e a inclusão, e antecipando aqueles que vão ser os nossos principais desafios no futuro, como é o caso do envelhecimento.

A inovação e o empreendedorismo podem e devem ser cada vez mais um driver de crescimento, para isso precisamos de capitalizar mais as empresas, através da banca, fundos europeus e duma indústria forte de capital de risco. Precisamos de grupos económicos a investir mais em inovação e capital de risco, de investidores institucionais que apostem em classes de ativos alternativos, duma percentagem dos investimentos dos family offices e high net worth individuals a apostar no capital de risco e em investimento inovador.

Apesar de tudo, o ano começou com boas notícias: com o closing dos fundos da Indigo Capital Partners e da Armilar Ventures, cerca de cem milhões de euros para investimento em startups tecnológicas globais (e dos poucos com a experiência e o track record e a atuar em linha com os benchmarks internacionais), e também com o lançamento oficial do duzentos milhões de euros e com o regresso da Portugal Ventures aos investimentos mais ativos.

Lisboa e Porto têm vindo a crescer, mas estamos longe de cidades como Boston, Londres, Los Angeles, Silicon Valley, Nova Iorque e Telavive, ou de Austin, Bangalore, Pequim, Berlim, Nova Deli, Paris, Seattle, Xangai, Tóquio, Toronto, e nem sequer de Amesterdão, Barcelona, Denver, Bombaim, São Paulo, Estocolmo, Seul, Sydney ou Vancouver. Cidades que se caracterizam por uma elevada densidade de startups, inovação e talento, alavancados por bom investimento público, investimento estrangeiro expressivo e por uma componente de investimento corporativo muito significativo.

Num momento em que se começa a falar de crise, parece-me importante relembrar esta nossa condição base de sermos humanos incoerentes, e relembrar que a economia é feita de expectativas, pelo que, num período de tanta mudança, é importante elevar o debate público e acima de tudo focar no que é relevante e estratégico, mas evitar cair em self fullfiling prophecy negativo, realidade poderosa, mesmo para quem não acredita muito em astrologia.

Cofundador e CEO da Beta-i

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