Ricardo Reis

O avanço das máquinas

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A excitação com as revoluções tecnológicas pode mudar o mundo 30 anos depois, mas não é sinal de bons tempos para a próxima década

No início deste século, recordo-me de inúmeras conferências sobre as possibilidades abertas pela internet. Oradores que misturavam os conhecimentos das novas tecnologias de informação com velhas técnicas de marketing e auto-promoção, falavam de um novo mundo com infinitas possibilidades. Mais importante, para mim, eram as implicações para a produtividade e para o crescimento económico. Porque as tarefas de tantos administrativos seriam substituídas por computadores e bases de dados, as poupanças seriam tão grandes que a prosperidade seria inevitável.

Quinze anos depois destas previsões, os números são claros: a era da internet foi a era de mais baixo crescimento da produtividade no mundo ocidental no ultimo século. Falamos hoje de uma “estagnação secular”, tal é o desapontamento com o desempenho das economias na era digital.

Qualquer pessoa aponta com facilidade para o papel importante da internet no seu dia a dia. Para muitos, é quase impossível conceber a vida sem as suas apps. Mas tente pensar antes no seu emprego, lembrando-se que um boom de produtividade em termos históricos requer que se produza o dobro do que se produzia há 15 anos atras. Você chega ao emprego em metade do tempo do que há 15 anos? Consegue escrever o dobro do que escrevia em 2000? Um supermercado ou aeroporto moderno funciona com metade dos trabalhadores? Um restaurante serve o dobro das refeições por hora?

Mesmo nos casos maior sucesso da internet, o espectacular valor de mercado da Google é quase igual à espectacular perda de valor das empresas de media tradicional e agências de publicidade. O efeito total na economia foi pouco. A era da internet produziu mais apps para ter sexo com desconhecidos ou olhar para fotografias de gatinhos, do que algo remotamente útil para o trabalho de um canalizador ou de um cabeleireiro. Com disse Peter Thiel, “queríamos carros voadores, conseguimos 140 caracteres”.

O novo boom em Silicon Valley nos últimos dois anos tem levado novamente à profusão de painéis sobre o admirável mundo novo, desta vez focado nos robots e no uso da inteligência artificial. O conselho da diáspora desta semana teve um deles, com os excepcionais portugueses que fazem descobertas fundamentais neste campo. Milhões estão a ser investidos nas novas tecnologias.
Partilho com eles o entusiasmo pela inovação e pela descoberta científica e aplicada.

Mas a historia económica ensina-me que, mesmo quando são bem sucedidas, estas inovações demoram pelo menos duas décadas até serem absorvidas de forma útil no processo produtivo com ganhos reais de produtividade e aumento da riqueza. Sendo um optimista, conto que a internet dê os seus frutos já na próxima década. Espero que estes ganhos compensem o efeito depressivo de todo este investimento nos robôs com pouco retorno no curto prazo.

Talvez desta vez seja diferente. A excitação com as revoluções tecnológicas pode mudar o mundo 30 anos depois, mas não é sinal de bons tempos para a próxima década.

Professor de economia na London School of Economics, em Londres

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