O barco de Miranda

Vou falar-vos do cruzeiro ambiental em Miranda do Douro, entre as arribas do Douro Internacional, numa paisagem imponente onde o rio delimita a fronteira entre Portugal e Espanha. Trata-se de uma iniciativa âncora que poderia alavancar a Economia do Concelho, à semelhança, por exemplo, dos passadiços do Paiva ou a ponte suspensa de Arouca, mas que, infelizmente, não se reflete, como devia, na atividade económica e cultural local.

Explorado pela Estação Biológica Internacional do Douro (EBI), localizada em Cozcurrita - Espanha, que é uma entidade que resulta de cooperação luso-espanhola, ao cruzeiro ambiental em Miranda do Douro deveria ser exigido que, à riqueza do património natural visitado, estivesse também estreita e mais intensamente associada a lhéngua Mirandesa, o património, a gastronomia, os trajes típicos, a música e as danças tradicionais, os eventos tradicionais, o artesanato, e outras esculturas naturais que abundam no Concelho. Em suma, o cruzeiro ambiental deveria estar mais conectado com a atividade económica e recreativa do Concelho, contribuindo para o adensamento da malha produtiva.

Acresce que, lendo as notícias da altura (in "Público", 30 de maio de 2006), se constata ser suposto que a EBI: (i) desenvolvesse projetos de investigação em diversas áreas, como, por exemplo, "... criar ... um rio artificial e aí testar um novo sistema de depuração de águas residuais a partir de filtros verdes", como referido pelo promotor do investimento, David Velásquez; (ii) promovesse a "... investigação científica, proteção da natureza, educação ambiental, lazer, turismo, descanso", como sustentado pelo então ministro dos negócios estrangeiros, Professor Freitas do Amaral. Infelizmente, a estes níveis, não creio que o Concelho tenha beneficiado da presença da EBI.

Acredito que o cruzeiro ambiental em Miranda do Douro pode e deve ser um produto turístico âncora que, aproveitando a beleza natural, e a riqueza do património cultural e geológico, torne a paisagem natural num produto turístico de excelência, como destino inovador e diferenciador. Desse modo, será possível alavancar uma dinâmica económica inédita, despertando o tecido empresarial, motivando o espírito do empreendedorismo, oportunidades de negócio e criação de novos postos de trabalho.

Efetivamente, enquanto a generalidade dos produtos turísticos em áreas naturais são integrados em planos estratégicos para o desenvolvimento das regiões e se tornam um fator-chave para a captação de investimento, vale a pena perguntar: porque não é rigorosamente assim em Miranda do Douro?

A resposta passa, naturalmente, pela ação da EBI e a omissão da Câmara Municipal de Miranda do Douro (CMMD). A primeira parece exclusivamente motivada pelo lucro supranormal que a posição de monopólio lhe confere. A segunda parece confiar, passivamente, no valor intrínseco de atração do recurso paisagístico natural, assente na beleza e singularidade da paisagem para atrair visitantes, descurando a criação de condições necessárias para que, uma vez no território, os visitantes possam viver outras experiências inesquecíveis.

Ora vejamos. Segundo o jornal "Mundo Lusíada" de 25 de agosto de 2014, a iniciativa contava já naquele período com 70 mil bilhetes vendidos por ano o que, a um preço médio de 18 euros por bilhete, corresponde a 1,26 milhões de euros que a EBI arrecada por ano. Com uma receita anual tão significativa, basicamente extraída dos recursos naturais do Concelho, será que a EBI não poderia fazer mais, investindo parte desse generoso lucro de monopólio na promoção do Concelho ou prescindindo de parte do tamanho desse enorme "bolo" a favor das populações locais?

E à CMMD não se deveria igualmente exigir mais? Observando o contexto, não deveria a CMMD desejar uma renegociação do contrato que obrigasse a EBI a investir mais no território ou, em alternativa, não deveria promover a entrada de, pelo menos, outro operador que aumentasse a concorrência? Todos sabemos que a concorrência promove a excelência da oferta, melhora o atendimento ao cliente, amplia horizontes, aumenta a conectividade com outras atividades, melhora a comunicação, procura novas tecnologias e novas ideias.

Estranhamente, a menos que haja algo que nos escape, custa entender a posição da CMMD pela preferência pelo monopólio da EBI que, dessa maneira, controla preços, lucros, qualidade do serviço prestado, e a escolha dos consumidores. De certa forma, o monopólio concedido à EBI faz lembrar o caso da exploração das barragens pela EDP. Esta, após ter extraído cerca de 7 mil milhões de euros da Terra de Miranda, nem um investimento decente ofereceu ao Concelho e, não fosse a ação do Movimento Cultural da Terra de Miranda, a CMMD continuaria, como sempre, a "dormir" sobre o assunto.

Creio, portanto, que para inverter a trajetória de despovoamento e empobrecimento em que o Concelho se encontra rumo ao colapso, a palavra-chave é "Mudança". Mudança para excluir monopólios e supostos profetas, mudança para incluir o contributo de todos numa rutura com o decadente passado recente, despertando definitivamente todo o potencial humano, cultural, económico e natural que caracteriza Miranda.

Vou falar-vos do cruzeiro ambiental em Miranda do Douro, entre as arribas do Douro Internacional, numa paisagem imponente onde o rio delimita a fronteira entre Portugal e Espanha. Trata-se de uma iniciativa âncora que poderia alavancar a Economia do Concelho, à semelhança, por exemplo, dos passadiços do Paiva ou a ponte suspensa de Arouca, mas que, infelizmente, não se reflete, como devia, na atividade económica e cultural local.

Explorado pela Estação Biológica Internacional do Douro (EBI), localizada em Cozcurrita - Espanha, que é uma entidade que resulta de cooperação luso-espanhola, ao cruzeiro ambiental em Miranda do Douro deveria ser exigido que, à riqueza do património natural visitado, estivesse também estreita e mais intensamente associada a lhéngua Mirandesa, o património, a gastronomia, os trajes típicos, a música e as danças tradicionais, os eventos tradicionais, o artesanato, e outras esculturas naturais que abundam no Concelho. Em suma, o cruzeiro ambiental deveria estar mais conectado com a atividade económica e recreativa do Concelho, contribuindo para o adensamento da malha produtiva.

Acresce que, lendo as notícias da altura (in "Público", 30 de maio de 2006), se constata ser suposto que a EBI: (i) desenvolvesse projetos de investigação em diversas áreas, como, por exemplo, "... criar ... um rio artificial e aí testar um novo sistema de depuração de águas residuais a partir de filtros verdes", como referido pelo promotor do investimento, David Velásquez; (ii) promovesse a "... investigação científica, proteção da natureza, educação ambiental, lazer, turismo, descanso", como sustentado pelo então ministro dos negócios estrangeiros, Professor Freitas do Amaral. Infelizmente, a estes níveis, não creio que o Concelho tenha beneficiado da presença da EBI.

Acredito que o cruzeiro ambiental em Miranda do Douro pode e deve ser um produto turístico âncora que, aproveitando a beleza natural, e a riqueza do património cultural e geológico, torne a paisagem natural num produto turístico de excelência, como destino inovador e diferenciador. Desse modo, será possível alavancar uma dinâmica económica inédita, despertando o tecido empresarial, motivando o espírito do empreendedorismo, oportunidades de negócio e criação de novos postos de trabalho.

Efetivamente, enquanto a generalidade dos produtos turísticos em áreas naturais são integrados em planos estratégicos para o desenvolvimento das regiões e se tornam um fator-chave para a captação de investimento, vale a pena perguntar: porque não é rigorosamente assim em Miranda do Douro?

A resposta passa, naturalmente, pela ação da EBI e a omissão da Câmara Municipal de Miranda do Douro (CMMD). A primeira parece exclusivamente motivada pelo lucro supranormal que a posição de monopólio lhe confere. A segunda parece confiar, passivamente, no valor intrínseco de atração do recurso paisagístico natural, assente na beleza e singularidade da paisagem para atrair visitantes, descurando a criação de condições necessárias para que, uma vez no território, os visitantes possam viver outras experiências inesquecíveis.

Ora vejamos. Segundo o jornal "Mundo Lusíada" de 25 de agosto de 2014, a iniciativa contava já naquele período com 70 mil bilhetes vendidos por ano o que, a um preço médio de 18 euros por bilhete, corresponde a 1,26 milhões de euros que a EBI arrecada por ano. Com uma receita anual tão significativa, basicamente extraída dos recursos naturais do Concelho, será que a EBI não poderia fazer mais, investindo parte desse generoso lucro de monopólio na promoção do Concelho ou prescindindo de parte do tamanho desse enorme "bolo" a favor das populações locais?

E à CMMD não se deveria igualmente exigir mais? Observando o contexto, não deveria a CMMD desejar uma renegociação do contrato que obrigasse a EBI a investir mais no território ou, em alternativa, não deveria promover a entrada de, pelo menos, outro operador que aumentasse a concorrência? Todos sabemos que a concorrência promove a excelência da oferta, melhora o atendimento ao cliente, amplia horizontes, aumenta a conectividade com outras atividades, melhora a comunicação, procura novas tecnologias e novas ideias.

Estranhamente, a menos que haja algo que nos escape, custa entender a posição da CMMD pela preferência pelo monopólio da EBI que, dessa maneira, controla preços, lucros, qualidade do serviço prestado, e a escolha dos consumidores. De certa forma, o monopólio concedido à EBI faz lembrar o caso da exploração das barragens pela EDP. Esta, após ter extraído cerca de 7 mil milhões de euros da Terra de Miranda, nem um investimento decente ofereceu ao Concelho e, não fosse a ação do Movimento Cultural da Terra de Miranda, a CMMD continuaria, como sempre, a "dormir" sobre o assunto.

Creio, portanto, que para inverter a trajetória de despovoamento e empobrecimento em que o Concelho se encontra rumo ao colapso, a palavra-chave é "Mudança". Mudança para excluir monopólios e supostos profetas, mudança para incluir o contributo de todos numa rutura com o decadente passado recente, despertando definitivamente todo o potencial humano, cultural, económico e natural que caracteriza Miranda.

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