O Benfica não merecia

Alguém ficou surpreendido? Eu não. Estava-se mesmo a ver. Depois de uma época televisiva inteira de insultos e ataques entre dirigentes, treinadores e comentadores, o campeonato só podia terminar desta maneira. Violência, confrontos, pilhagens e detenções. No final quem se lixa é apenas a polícia e os adeptos, porque os verdadeiros culpados, esses estão calados e bem calados.

Não há assunto que tenha mais destaque, horas de transmissão e debates na televisão do que o futebol. O fenómeno foi crescendo à medida que a política se tornou cada vez mais desinteressante. Não sei como aconteceu, mas de um dia para o outro os mais sérios comentadores políticos, governantes, economistas e até sindicalistas passaram a comentadores televisivos de futebol. Tão depressa falam do desemprego, do PIB, da austeridade, de coligações e da guerra da Síria como da arbitragem, das transferências de época ou mesmo das escolhas de Jorge Jesus, de Lopetegui e Marco Silva. Mudam de casaco (ou será casaca ?) e de discurso a um ritmo tão alucinante que nunca sabemos o que estão a comentar. O frenesim é tal que a mesma pessoa chega a estar em dois canais ao mesmo tempo, e a falar de assuntos opostos!

Já se perdeu todo o pudor e vergonha. Uma coisa é gostar de futebol, outra coisa é falar do assunto com autoridade, mas é isso que pessoas com responsabilidade neste país fazem sem medir as consequências. Esses mesmos que passaram o ano a espumar de raiva na televisão nos debates televisivos de treinadores de bancada, são os mesmos que agora aparecem como virgens ofendidas a condenar a violência no futebol. Como se atrevem? Todos, com poucas e honrosas exceções, mais não fazem do que destilar ódio e veneno sobre milhões e milhões de adeptos todo o ano!

Com os principais dirigentes e treinadores, a situação não é muito diferente. Insultam-se, instigam ódios e vinganças, dentro e fora do campo, e ainda mais quando têm uma câmara de televisão por perto. Fazem-no às claras e já nem se preocupam em disfarçar, mas depois dos confrontos ficam calados e apelam ao silêncio e contenção. Pudera, a culpa pesa muito.

As cenas de violência a que assistimos no fim de semana são condenáveis, vergonhosas e sem qualquer justificação, mas eram quase inevitáveis. Podia a polícia ter sido mais cautelosa e rigorosa, podiam os adeptos ter mudado o local dos festejos, podiam até os arruaceiros do costume ter sido afastados que tudo isto aconteceria na mesma. Milhões de portugueses passaram o ano a ser espicaçados na televisão com ódios de morte entre clubes rivais. A pressão tinha de explodir no dia em que um deles fosse campeão. Desta vez foi o Benfica mas poderia acontecer o mesmo se fosse o Porto, o Sporting ou qualquer outro grande clube o vencedor.

O Benfica não merecia que lhe estragassem a festa desta maneira. Infelizmente, enquanto o futebol na televisão for tratado como uma tourada ou ringue de boxe, receio que as cenas do Marquês de Pombal se voltem a repetir por muitos e longos anos.

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