O Brexit continua

Esta semana, Theresa May, a nova primeira--ministra do Reino Unido, fez o seu primeiro discurso significativo desde que tomou o poder.

Esta semana, Theresa May, a nova primeira--ministra do Reino Unido, fez o seu primeiro discurso significativo desde que tomou o poder. Coincidência ou não, umas horas depois, a cotação da libra em relação ao dólar caía para o mínimo dos últimos 30 anos. Ironia engraçada, enquanto ela afirmava que o Reino Unido era a quinta maior economia do mundo, a queda na taxa de câmbio levou a que fosse ultrapassada pela França durante umas horas.

Do lado ideológico, May afirmou-se claramente como uma conservadora big-government. No extremo oposto de Margaret Thatcher, May repetidamente apontou para mais programas públicos como a solução dos mais diversos problemas. Ela criticou os mercados e os capitalistas e falou de Estado, sociedade e nação como se fossem o mesmo. Ela defendeu a protecção paternalista dos pobres, ao mesmo tempo que se referia aos imigrantes como problemas.

Mais importante para Portugal, este discurso confirmou o que se tornou gradualmente claro no último mês. A Inglaterra vai mesmo sair da União Europeia, e parece improvável que mantenha sequer um acordo alargado de livre circulação de pessoas, bens e capitais, como fazem a Noruega ou a Suíça. As promessas de May de restringir fortemente a imigração para o Reino Unido são incompatíveis com o mercado único como o conhecemos. Por sua vez, a incompetência grosseira de Boris Johnson e da restante equipa encarregada de negociar com o resto da Europa garantem não haver um bom acordo.

Os planos de muitas multinacionais, sobretudo no setor financeiro, para saírem de Londres voltaram a dominar as notícias. Se Paris não fosse uma cidade com problemas tão graves de segurança e antissemitismo, se Dublin não fosse tão pequena, ou se Frankfurt fosse um pouco mais cosmopolita, já muitos teriam saído de Londres. Até ao fim de 2019, vamos ter a hard brexit que tantos receavam, e num formato difícil de prever. A UE nunca mais será a mesma.

Mesmo no curto prazo, May e o partido conversador abraçaram a bandeira anti-imigração que tantos votos rendeu à extrema-direita do UKIP. Falou-se de obrigar as empresas a declarar ao governo os seus trabalhadores estrangeiros, de restringir os vistos para estudantes, e de gradualmente expulsar os muitos doutores e enfermeiros europeus que hoje mantém o sistema nacional de saúde a funcionar. Todas estas medidas afectam directamente centenas de milhares de portugueses.

Distraídos com o espectáculo grotesco Donald Trump, não temos prestado suficiente atenção em Portugal às nuvens no horizonte da política europeia. Entretidos com a nossa inconsequente diabolização dos credores estrangeiros, não apreciamos a deriva xenófoba inglesa, a que se soma o crescimento rápido dos radicais nacionalistas na Alemanha ou na Suécia, ou os debates assustadores na política francesa. Pequeno país com milhões de emigrantes, que deve uma fortuna ao exterior, e que depende do mercado externo para crescer, Portugal tem muito a perder com esta antiglobalização.

Professor de Economia na London School of Economics

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