O campeonato da FIFA

No campeonato para a companhia mais malévola no mundo, a FIFA compete pelos lugares do topo. A FIFA não polui rios nem explora crianças ou financia golpes de Estado, mas as suas práticas nefastas são bem mais abrangentes e têm um alcance global. Vejamos:

Os escândalos de corrupção na FIFA são constantes. Sempre que
há um processo de escolha para o local do Campeonato do Mundo,
alguns jornalistas tentam investigar quem são os delegados que votam
nestas decisões e descobrem-se carecas que são maiores do que a de
Pierluigi Collina. A atribuição do Mundial de 2022 ao Qatar foi tão
chocante que o muito polido Bill Clinton reagiu à notícia dando um
soco num espelho.

O topo da gestão da FIFA tem as características de governance
dos piores conselhos de administração do mundo. O processo de
eleição e remoção do CEO está construído de tal forma que ele
só sai praticamente se quiser. Por isso, o anterior presidente, João
Havelange, ocupou o cargo durante 24 anos, retirando-se aos 82, e o
atual presidente já ocupa o poleiro há 16. Em termos de
remuneração, a FIFA simplesmente não revela quanto ganha o
presidente, mas o edifício luxuoso em que está a sede da empresa ou
a forma como viajam os seus executivos mostra que pelo menos em
“despesas de representação” não há muita modéstia. Além
disso, para uma organização sem fins lucrativos, cujos rendimentos
ultrapassam os quatro mil milhões, a transparência das contas é
abismal.

Depois de anunciado o local do campeonato, a FIFA trata as
instituições locais com o desrespeito de um exército invasor. O
governo do país lá engole quando a FIFA impõe que se revoguem leis
do país, como a lei brasileira que proibia a venda de álcool nos
estádios e que a FIFA obrigou a que fosse alterada, ou não fosse a
Budweiser um patrocinador importante. A morosidade do sistema de
justiça é um problema no mundo inteiro, e os juristas são lestos a
defender a presunção de inocência e direitos dos acusados. Mas a
FIFA impõe, e os juristas lá engolem, que se criem tribunais
especiais durante o campeonato de forma a que um assaltante ou
carteirista seja condenado em menos de 48 horas a anos de cadeia.

Por fim, a FIFA relaciona-se com países soberanos de uma forma
que faz o FMI parecer um anjinho do coro. O FMI empresta o seu
próprio dinheiro e é crucificado por insistir que o país ponha as
contas públicas em ordem. A FIFA não põe um tostão e exige gastos
sumptuosos estados e infraestruturas que levam um país à
bancarrota. Em troca, a FIFA fica com todo o dinheiro da venda de
bilhetes e dos direitos televisivos e ainda impõe que o país não
cobre um cêntimo de impostos. Se alguém critica, lá vem Sepp
Blatter ameaçar que retira a organização do Mundial.

O futebol traz muita alegria e, talvez por isso, estamos dispostos
a esquecer que as pessoas que o gerem são pouco recomendáveis. Mas
os protestos dos brasileiros nesta Copa são um exemplo para o resto
do mundo. Quando se chega a um limite, o povo não se deixa iludir
pelo circo.

Professor de Economia na Universidade de Columbia, Nova Iorque

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