O canhão da Nazaré e a bazuca da Europa

Faz, no próximo mês de novembro, dez anos que Garrett McNamara surfou na Praia do Norte na Nazaré uma onda gigante que, não só o colocou no Guinness World Records mas, principalmente, transformou Portugal num destino de eleição dentro da rota mundial do surf.

Foi isso que fez com que o nosso país passasse a atrair milhares de surfistas - não só os que adoram a adrenalina das ondas gigantes, mas também os que não vão além das ondas grandes, das médias ou mesmo das pequenas. Tudo porque se veio a "descobrir" que, em praticamente toda a nossa costa, se pode praticar surf para todos os gostos, habilidades e coragens.

O que é interessante é que a dita formação geológica, responsável pelo gigantismo das ondas, está lá há milhões de anos. Era "nossa", mas não servia para nada. Foi preciso vir um norte-americano surfar uma dessas ondas - a que se juntou a arte do fotógrafo que captou o momento certo pelo melhor ângulo - para que tudo se transformasse. Ganhámos notoriedade, ganhámos prestígio e hoje temos uma enorme capacidade de atração de surfistas.

A pergunta que coloco é: quantos "canhões da Nazaré" não haverá por aí? Quantos "canhões da Nazaré" não possuiremos e que, apesar do seu enorme potencial de valorização, estão ainda por explorar?

Numa altura em que tanto se fala - e espera! - da bazuca europeia, seria bom tirar partido de todos os "canhões da Nazaré" que temos mas que nada criam. Porque nem sabemos que existem e, muito menos, nem sabemos como gerar valor e riqueza a partir deles. Ou, às vezes até sabemos que os temos, mas não os exploramos porque dá trabalho.

Sei que é muito mais fácil e popular despejar um balde com milhares de milhões de euros em cima da economia e da sociedade. Mas receio que, depois de o balde ficar vazio, pouco reste para criar riqueza para os nossos filhos.

Identificar oportunidades, tirando partido dos recursos que temos, planeando, organizando e trabalhando, é a única maneira de sairmos da estagnação em que caímos ao longo das duas últimas décadas. Sim, porque entre os "canhões da Nazaré" e as "bazucas europeias, eu opto claramente pelos primeiros.

Carlos Brito, vice-reitor da Universidade Portucalense

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