O carro 

Existe hoje uma estúpida tendência de desvalorização dos carros, como se os carros fossem apenas bens utilitários sem qualquer valor para além do material. Mas um carro é uma casa. Aliás, o carro é mais do que uma casa: é um quarto, um templo, uma discoteca, uma escola, uma sala de leitura, um escritório, um consultório de psicologia, um caixote de lixo e, em alguns casos, uma arrecadação. No carro a vida acontece, é o que é. Deveriam existir mobiliárias para os carros tal como existem imobiliárias para as casas: os stands retiram toda a dignidade e o encanto aos carros. Uma pessoa vai comprar um carro e o vendedor só nos fala do motor, dos quilómetros, da cilindrada e dos cavalos, como se essas coisas interessassem. Os carros são muito mais do que isso.

Nos carros, meus caros, educamos filhos. Quem nunca se virou para trás a 120km/h para acertar um tabefe nos miúdos à luta no banco de trás? E não acertou? As fases de crescimento das crianças passam todas pelo carro: o dia em que eles conseguem prender o cinto de segurança sozinhos é o início da nossa libertação, é como tirar as fraldas. É ternurento assistir à sua passagem de cadeirinha em cadeirinha até chegarem ao banco da frente e, por fim, fora. É também nos carros que se têm as conversas mais importantes entre pais e filhos. E porquê? Porque não os encaramos de frente e isso facilita a comunicação. "Mãe, não quero estudar mais", "acho que Deus não existe", "sou do Bloco de Esquerda" e todas as conversas sobre sexo, são assuntos que só devem ser desenvolvidos nos carros. Ali, lado a lado, nunca olhos nos olhos. O carro proporciona um ambiente singular para as lições de vida, os discursos moralistas, os sermões, as grandes zangas. No banco ao lado ou no banco de trás, eles não nos viram as costas, não reviram os olhos, não encolhem os ombros - pelo menos não vemos porque estamos a guiar. E se a conversa azedar podemos sempre parar o carro e empurrá-los para fora.

Nos carros os pais esperam pelos filhos. Em todos os sentidos: esperamos que eles entrem, que eles cresçam e que eles tirem as compras do carro. Também afinamos os gostos musicais e atualizamo-nos quanto à agenda social dos passageiros. No carro podemos perguntar "quem era aquela com o decote até ao umbigo?" ou "que cheiro é este a cigarros?" e temos toda uma viagem para detalhar com finura estes temas. Também podemos fazer silêncios confrangedores e guiar mais depressa ou mais devagar conforme o nosso grau de disposição só para tornar a viagem deles mais desagradável. No carro temos poder ilimitado sobre os nossos filhos, coitados.

É ainda dentro do carro que se definem hierarquias. Nas famílias grandes, por exemplo, os mais novos ocupam o lugar mais perto dos cães e das compras, salientando-se assim a relevância das conversas em proporcionalidade inversa ao seu timbre de voz. Também é ali que a relação dos irmãos se intensifica ou é destruída: o lugar à janela reúne em si toda uma filosofia de família onde se forjam personalidades. Assim como é através dos imperativos "não me toques", "não te encostes", "fecha a janela" ou ainda "fecha das pernas", que se percebe o grau de harmonia familiar.

O sistema alta voz veio revolucionar ainda mais esta realidade. Assim como as redes sociais abalaram as relações humanas, o sistema alta voz agitou as relações dentro dos carros. Há palavrões que os miúdos só ouviram pela primeira vez dentro de um carro porque nos esquecemos de avisar o interlocutor que estão crianças a ouvir a conversa. Quem nunca?

O carro, meus caros, é o novo teatro de guerra das relações familiares. Nem menos.

Jurista

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