Opinião: Hugo Veiga

O colapso dos sentidos

Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. EPA/JOEDSON ALVES
Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. EPA/JOEDSON ALVES

"No final do dia, os resultados foram afixados. Ganhou o do lado direito. Achavam os mais esperançosos que todos voltassem a enxergar ambos os lados."

Até hoje não se entende totalmente o que aconteceu naquele país longínquo. Certo é que, às vésperas da escolha do seu novo líder, metade da população passou a enxergar apenas um lado das coisas. E a outra metade da população o outro. Assim. De repente. Todos cegos pela metade.

Sem tardar, os sintomas fizeram-se sentir. Vendo apenas um lado das coisas, cada grupo começou a defender, alto e bom som, o que concluía baseado em seus factos visíveis. Mas, por mais que esperneasse, a outra metade havia ficado surda às suas vozes, dando ouvidos apenas ao que diziam os seus pares. Aqueles que enxergavam o mesmo. Como os emissores das mensagens não encontravam recetores, era como se nada falassem. E assim ficou o povo mudo pela metade.

E, quando a paz social já estava a dar o badagaio, veio o pior. É que essas hordas de meio cegos, surdos e mudos partilhavam o mesmo espaço. Pessoas de ambos os lados conviviam nos mesmos transportes públicos, no trânsito, nas ruas, nas mesmas empresas, nas redes sociais e, pior, no mesmo seio familiar.
E, assim, o até então unanimemente gostoso “todo junto e misturado” azedou. Não conseguindo nem olhar para os seus colegas e parceiros, pessoas de ambos os lados começaram a amargurar à mesa. Legumes perderam o frescor; carne, a sua suculência; temperos, o seu poder. Ficou tudo insosso até não ter mais sabor.

Após o perder do apetite, cegos, surdos e mudos renderam-se ao descalabro: perderam o tato. Colegas, vizinhos, amigos, pais, mães, cônjuges, tios, avós e filhos começaram a trocar farpas sem dó, insensíveis ao sofrimento causado. No Facebook, “desamigaram” e chegaram até a chamar pra porrada (história verídica), assim, duelos à antiga. No WhatsApp, familiares saíram dos grupos de família sem dar tchau ou, se se despediam, faziam-no com verbalhetes impróprios capazes de inquietar os corações de avós já nada supimpas. No seio de famílias, casais passaram a viver uma rotina de estranhamento. “Como é que a pessoa que amo não é capaz de enxergar o que eu enxergo? Como?”… “Como é capaz de defender tamanho imbecil? Como?”

Foi então que o evento final se desenrolou. A população inteira convergiu para as urnas, defendendo o seu candidato, que era parco em qualidades. Mas pouco importava o candidato. Cada lado da população queria era vencer. Jogar na cara da outra metade que o lado deles era uma bosta. E aí, com o seu candidato lá no pedestal, conseguiriam romper a cegueira dos derrotados. Fazendo-os enxergar que o seu candidato não era tão mau como eles falavam. Que sim, o seu líder não era o mais perfeito, mas que naquelas condições era o melhor.

No final do dia, os resultados foram afixados. Ganhou o do lado direito. Achavam os mais esperançosos que todos voltassem a enxergar ambos os lados. Mas não. Ficou tudo na mesma. Os sintomas diminuíram, mas a maleita continua, como galhos e lixo num cenário pós-vendaval.
Naquela terra distante, viveu-se um Carnaval invertido. Durante dias valeu tudo, mas todos levaram a mal. E numa eterna Terça-Feira de Cinzas, continua esse povo meio cego, surdo, mudo, insensível e imune ao cheiro de primavera que floreia as paisagens.

Mas estamos no caminho da cura. O Natal vai confortar os corações inquietos. O réveillon, disseminar a esperança. E a alegria do Carnaval, curar em definitivo quaisquer divisões. Porque naquela terra pode-se até perder todos os sentidos, mas jamais o sentido e o mais puro sentimento.

Executive creative director do AKQA São Paulo

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