O cospe e a distopia das férias 

Um pãozinho com fiambre, uma fruta e lá vão eles. Havia sempre alguém que fazia melhores sanduíches, mas demorava mais tempo e o importante era ir. Um dia de férias durava uma eternidade e acontecia de tudo sem querer e sem ninguém saber. Ninguém queria saber de nós. Agora vamos ali e depois um mergulho, e depois ali ao fundo, depois subir não sei onde, tipo Verão Azul mas com bicicletas mais manhosas. Ninguém saber onde estamos é o contrário de estarmos presos. De repente, com fome ou frio do fato de banho molhado, entrávamos em casa e dávamos um ar de graça, de férias bem vividas. Era tudo de repente, sem programação e só porque apetecia. Quem estava fazia parte do grupo, tipo bando. primos de primos, amigos de amigos, irmãos de todas as idades, fosse quem fosse que ali estava, ia ficando sem critério. Havia os rapazes giros que deixavam de ser giros se ligassem ao facto de serem giros, as raparigas giras, que tinham de ser burras porque assim não vale, os gordos, de quem todos gostavam, os cómicos, que nasciam assim e normalmente usavam óculos, os malucos, que nos ensinavam o que era uma asneira e uma parvoíce bem feita e os tímidos, que faziam das tripas coração para irem em bando e eram respeitados pela coragem e pelo voto de silêncio. As idades eram mais ou menos desconhecidas, assim como os talentos, as notas, as marcas, o dinheiro que se tinha ou de onde se vinha. Éramos um bando em plena liberdade num espaço limitado pelas ruas com carros. Os carros e os desconhecidos com ar suspeito de nos levarem dali raptados eram os perigos.

Não sei como, mas nas casas de férias havia sempre fruta boa e pão com sabor diferente ao pão da escola. Música aos berros num daqueles gravadores a pilhas e começava um novo dia quando o sol se recolhia. No princípio tocávamos às campainhas das portas e fugíamos com o coração aos saltos e sem lealdades - os gordos que fossem apanhados. Mas ninguém nos ligava, nem para nos abrirem a porta. Isto era no princípio, depois, a noite tornou-se o melhor das férias e cada noite era a última da vida, cada amigo era o melhor do mundo e tudo, mas absolutamente tudo, era um romance, drama e aventura ao mesmo tempo. Não havia férias sem o pão quente da madrugada e sem dramas exagerados pela cerveja que se ganhava à moedinha.

Os pais, esses, viviam noutro planeta. Pendurem as toalhas, façam a cama, lavem a loiça, era o que restava da nossa relação. Não nos dávamos com a vida doméstica, só jantávamos, aquela fruta boa e guisados em tachos grandes porque éramos mais do que as casas comportavam. Depois da loiça lavada íamos em liberdade. E os pais, na liberdade deles, com os amigos deles, os programas chatos em casa uns dos outros, nos cafés ou nos restaurantes. Havia um tio com quem jogávamos às cartas e fazia os melhores ovos mexidos do mundo às 6 da manhã, quando acabavam os campeonatos de King.

Agora, nem vos conto como é. Nem vos digo como o telemóvel estragou a liberdade dos nossos filhos, como as famílias pequenas reduziram os bandos, como as modas, os estereótipos, as marcas, a necessidade de gastar dinheiro e a falta de gordos, de cómicos e de tímidos tiraram a graça aos grupos hoje feitos de bonecos. Como as noites fabricadas para serem publicadas em modo de stories no Instagram acabaram com as noites. Ninguém se relaciona e todos sabem quem são todos, o que fizeram, onde estão agora. Já não há bandos, há voyeurs das noites e dos dias uns dos outros em género de distopia. Hoje, eles jogam ao Cospe e não ao King. Há nomes que dizem tudo.

Jurista

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