Opinião

O défice de marketing português

(DR)
(DR) Ana Rita Guerra

Esbarramos em situações inversas: por aqui encontra-se muito marketing e pouca substância, e em Portugal muita substância com défice de marketing

Quando Rachel visitou Portugal para o veraneio habitual em casa da antiga ama portuguesa, Leonor, decidiu aventurar-se Douro acima à procura de vinhos diferentes, requintados, maturados com a sabedoria centenária dos pequenos produtores nacionais. Há anos que a norte-americana nascida em Berkeley visitava Portugal nas férias. Mas foi depois de começar a trabalhar num importador de vinhos que se apaixonou pelo líquido preferido de Baco. E ao regressar à Califórnia, descobriu que não conseguia encontrar nenhum dos vinhos que tinha provado em Portugal.

Um atrás do outro, os importadores e retalhistas diziam-lhe que ninguém conhece Portugal, ninguém consegue pronunciar as denominações e há já demasiado vinho europeu no mercado.É um problema recorrente e transversal a quase todos os sectores, que nem a extraordinária comunidade luso-americana da Costa Oeste conseguiu colmatar: o desconhecimento equivale à inexistência. E nós, os portugueses, temos um défice crónico de marketing pessoal.

Na semana passada, o vídeo promocional “Are you Ready” do Turismo do Centro de Portugal, que tem o inigualável Garrett McNamara no final, recebeu o Certificado de Excelência Criativa no Festival Internacional de Filme e Vídeo em Los Angeles. A reputação do país como um paraíso turístico vem sendo cimentada há alguns anos e o esforço de promoção coordenado entre várias organizações tem dado resultado – basta ver como os números subiram no pós-crise e como se fala já num excesso de turistas em certas zonas.

Não é disso que falo. O défice de marketing pessoal está agarrado ao nosso ADN, pouco dado ao networking agressivo que vejo nos americanos e convencido, ainda, de que lá fora é que há mais e melhor. Esta constatação surge com frequência em conversas com outros portugueses que estão nos Estados Unidos. Visto da América, Portugal tem um contorno dourado e as qualidades da sua gente sobressaem em todas as dimensões. Em muitos aspectos, esbarramos em situações inversas: por aqui encontra-se muito marketing e pouca substância, e em Portugal muita substância com défice de marketing.

Os americanos são treinados para se venderem como se fossem a melhor coisa que apareceu desde o pão fatiado, mesmo que não consigam compôr um texto com introdução, desenvolvimento e conclusão. Ouvem desde pequeninos que vivem no melhor país do mundo, que libertaram os outros povos da subjugação e que o “American Way of Life” triunfará sobre os outros. São mestres no “hussling”, não têm vergonha de mandar barro à parede nem de se atirarem para cima de uma vaga de emprego mesmo que não tenham as qualificações pretendidas. Não pedem desculpa por existirem e serem ambiciosos – é quase uma obrigação. Na creche os bebés já são estimulados em preparação para o pré-escolar, que a partir dos 3 anos ditará todo o seu futuro académico. Essas crianças vão crescer aprendendo que podem ser o que quiserem e que vivem no melhor país do mundo, e todos os outros empalidecerão em comparação com eles. Assumem logo que têm mais razões para serem escolhidos e mais capacidade para vencer, quer isso corresponda à verdade ou não. Spoiler: muitas vezes não corresponde mesmo.

Os portugueses, em muitas áreas e bastas vezes, estão acima da média mas não o reconhecem e não se vendem como tal. É fácil encontrar vinhos de pequenos produtores italianos em qualquer parte, mas não portugueses (Rachel Farah quer mudar isso). As pessoas reconhecem a gastronomia de tapas espanholas, mas além do pastel de nata não saber dizer um único prato típico de Portugal. Sabem que a Estónia e a Finlândia têm polos avançados de inovação, mas desconhecem que Lisboa vira startups como panquecas ao pequeno-almoço. Atribuem financiamento a ideias parvas em Silicon Valley, mas receiam investir num país periférico com um sotaque fechado.

Não há uma solução única para isto e os filmes promocionais não chegam para tanto. Quem tem um pé de cada lado do Atlântico, pode, ainda assim, construir uma ponte virtual que mostra o melhor de Portugal aos americanos e convencer os portugueses de que podem ser primus inter pares e gabarem-se disso. É isso que vejo nos três mosqueteiros da Feedzai, nos campeões da Talkdesk, nos engenheiros da Unbabel, e em tantas outras empresas portuguesas que estão a desbravar caminho. É isso que vejo também em luso-americanos como Nelson Ponta-Garça, que vive entre a Califórnia e os Açores, ou como Luís António, que persevera no mundo difícil dos videojogos em São Francisco. Que seja Dia de Portugal todos os dias, em qualquer parte do mundo.

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