Opinião

O desporto e a fraude

Fotografia: Pawel Kopczynski/Reuters
Fotografia: Pawel Kopczynski/Reuters

O futebol também está profundamente embrenhado nas fraudes violadoras do que frequentemente é designado por "verdade desportiva"

  1. 1. Siga o dinheiro e encontra a fraude!

Nem todo o dinheiro tem a ver com a fraude, mas esta está sempre fortemente correlacionada com a obtenção de rendimentos económico-financeiros. Esta relação é tanto mais forte quanto a honestidade e a honra se diluem na porosidade da crescente falta de ética vigente, associada ao primado do indivíduo face às relações sociais, à financiarização, à importância crescente do crime organizado transnacional (que nos ocupou nas duas últimas crónicas neste mesmo espaço), enfim, o que alguns autores designam por “o novo capitalismo criminal” (título de um livro de Gayraud).

As actividades desportivas, pelos montantes de movimentações financeiras envolvidas, contendo múltiplas operações sem “preço de mercado” previamente conhecido ou de intangíveis, pela grande projecção social que revela e pela distracção clubística que encobre a sensibilidade à realidade revelada, são um terreno privilegiado de fraude.

  1. 2. De entre o conceito genérico de fraude no desporto importa distinguir três situações diferentes, por vezes interligadas: a) Fraude nas instituições desportivas; b) Fraude na prática desportiva e, da articulação de ambas; c) Branqueamento de capitais. As instituições desportivas (de clubes a federações, de grupos de adeptos a agentes desportivos, de associações diversas a estruturas públicas, de organizadores de eventos a órgãos de informação, entre outros) estão, como todas as instituições, quase sempre sob o risco de fraude: fraude interna na sua tipologia habitual, fraude fiscal e corrupção institucional e política. Se associarmos a esta trama de possibilidades o imenso mundo das apostas desportivas, legais ou não, irrompe a actividade de “lavagem de dinheiro”, arrastando a fraude na prática desportiva.

As formas assumidas por estas fraudes dependem do tipo de desporto, quer pela técnica da sua prática, quer pela importância dos intervenientes e a relevância individual ou colectiva no resultado final, quer pelos agentes defraudadores e suas práticas possíveis, quer ainda pelo grau de visibilidade social do que aí se passa.

  1. 3. O futebol, frequentemente identificado no nosso país como “desporto rei”, também está profundamente embrenhado nas fraudes violadoras do que frequentemente é designado por “verdade desportiva”.

O OBEGEF, também empenhado em revelar situações de violação da lei e da ética, com a responsabilidade de dominar áreas do saber interdisciplinar, publicou dois estudos sobre a fraude no futebol que têm como tipologia a corrupção dos árbitros. Num primeiro estudo modeliza o comprovado judicialmente na primeira liga italiana. Num segundo deduz a probabilidade de fraude na primeira liga portuguesa dos últimos anos admitindo o mesmo modo de actuação.

Eles estão disponíveis para quem o pretender. Aguardamos as vossas opiniões: geral@gestaodefraude.eu .

E voltaremos ao assunto na próxima crónica.

 

Carlos Pimenta, sócio fundador do Observatório de Economia e Gestão de Fraude (OBEGEF)

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