O direito a ser mau aluno

De casa até à escola, demorávamos 5 minutos, sempre a subir. "Vamos rezar", começava ele baixinho, para pedir que a professora não lhe desse reguadas. E lá íamos, eu e o meu irmão, atrasados e de mãos dadas calçada acima a rezar Pais-Nossos - que nunca desencadearam o milagre de acalmar os ímpetos corretivos da professora.

Isto assim contado faz impressão - duas crianças pequenas a rezar para não apanhar da professora, podia ser o princípio de um conto dos irmãos Grimm -, mas na altura nem por isso. A professora dele, baixinha e velhinha desde os 40 anos, tinha direito às reguadas e ele tinha o dever de chegar a horas. Este acordo tácito não impediu que chumbasse o 1.o ano porque faltava (fugia) às aulas para ir brincar ao berlinde ou qualquer coisa do género que lhe ocupava as manhãs. Tenho ideia que ainda chumbou mais anos, sempre porque fugia das aulas - havia uma quinta com um tanque de água verde mesmo ao lado da escola para onde ele e os amigos iam tomar banho com os sapos à hora da matemática. Divertiu-se de certeza e a autoestima deste meu irmão nunca foi beliscada. Hoje é professor, imaginem, um professor que era mau aluno. Ele foi mau aluno até querer deixar de ser e depois lá encarreirou sorrateiramente. Tudo sorrateiramente.

No currículo dele não está lá nada sobre os banhos no tanque dos sapos ou o chumbo logo à entrada da escola. Para quê? Também não se tem em má consideração, deve ser porque nunca se comparou nem o compararam com ninguém. Foi mau aluno e com muito gosto, sem perceber que o era. Era assim. E hoje é professor, repito. Mas hoje não poderia ter sido assim.

Os nossos miúdos não têm direito a ser maus alunos. Ser mau aluno é um drama. É mesmo, não estou a exagerar. A relação com os pais deteriora-se à velocidade de uma laranja podre, a autoestima mirra, o futuro torna-se sombrio e a sombra da indigência uma ameaça séria à sua condição de adulto. Ser mau aluno é um karma, uma fatalidade insanável que confunde o aluno com o filho, a criança com o futuro dela, como se uma coisa tivesse que ver com a outra. Não tem. O drama não é a falta de talento para a matemática, as dificuldades de leitura ou a iliteracia no inglês, a tragédia real é o que tudo isso causa, a chinfrineira que provoca nos galinheiros. Quase tudo que diga respeito à escola é sanável, menos essa chinfrineira que as negativas e o incumprimento dos trabalhos provocam ao final do dia, alastrando pelo fim de semana e deformando o resto da vida. Ser mau aluno é um direito, tem de ser.

Há quem não consiga ou simplesmente não queira querer saber. E? Qual é o mal. Pode ser que mais tarde queira e há sempre tempo ou pode ser que não queira e afinal não era preciso. Também pode acontecer que se arrependa e ensine os filhos pelo exemplo. O meu pai, por exemplo, que sempre foi mau aluno, trabalhou mais a vida toda que eu sei lá. "Como não estudei tenho de trabalhar muito mais", dizia. E ensinou-nos assim que há vários caminhos. Também ele sabia que era capaz de tudo e foi, apesar de ter sido mau aluno. Lá fora, conta-se, há miúdos a atrasar a entrada na escola para poderem ser melhores alunos do que os colegas, uma vez que são mais velhos e maduros. E são os pais que os atrasam para os poderem comparar. Há coisa mais feia e desleal?

Ser mau aluno é só isso. E é pouco a comparar com aquilo que a vida e o mundo exigem. Não é um traço de personalidade, não diz nada sobre o caráter e muito menos sobre a pessoa que se é. E é uma condição que passa com o tempo. É deixar, digo eu. Ser mau aluno é um direito como outro qualquer, que tem de ser protegido, em favor da proteção dos menores. E não estou a brincar.
Jurista

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de