O Espírito do Douro

Esta crise veio trazer de novo a aposta em regiões como o Douro para a agenda estratégica do país. A dinâmica na área do turismo e as condições de acolhimento que o Douro propicia estão a relançar a aposta em novos conceitos nesta zona de excelência . O Douro representa de facto uma nova oportunidade de relançamento da economia e de adaptação a uma nova filosofia de vida que esta pandemia veio trazer. Mas significa também a necessidade de ter uma visão clara de qual deve ser o foco que deve ser colocado do ponto de vista estratégico em termos de investimento e fixação de capital e de pessoas. No Douro, aos poucos, vamos tendo casos de sucesso que a todos nos orgulham e devem constituir um exemplo para o futuro. Um verdadeiro Espírito do Douro.

São muitos os casos que demonstram de forma clara a aposta que a região está a fazer de forma inteligente na área da inovação e competitividade, quer nos setores mais tradicionais como nas novas experiências no turismo e lazer. A Quinta do Pessegueiro, que se tem consolidado como uma aposta ganha como espaço de lazer centrado na excelência, é o exemplo de como a partir duma leitura inteligente da cadeia de valor, se conseguem colocar no mercado propostas que fazem um compromisso de sucesso entre a força da tradição e o apelo da inovação. A Célia Varela tem sido a grande inspiradora desta agenda de futuro - visitar e poder desfrutar deste fantástico espaço no Douro é uma experiência que vale a pena e nos dá uma visão muito positiva deste Douro novo em que todos acreditamos.

As políticas públicas de aposta no desenvolvimento estratégico do território, muito associadas à dinâmica dos fundos comunitários e ao trabalho em rede protagonizado pelas ​​​​​​​áreas metropolitanas e comunidades intermunicipais, em articulação com universidades e associações empresariais, têm sido importantes para reforçar os níveis de inteligência coletiva das diferentes áreas regionais e acompanhar as tendências estratégicas produzidas e disseminadas por entidades de referência como a Comissão Europeia e a OCDE. No caso do Douro, neste contexto de aposta na inovação , de contributo central da UTAD enquanto centro de conhecimento e competência, não nos podendo esquecer do papel da cultura e ciência que instituições como a Fundação Mateus tão bem têm sabido desenvolver.

Quando se analisam, contudo, as apostas estratégicas em termos de especialização económica assumidas pelas diferentes áreas do território vem ao de cima a falta de coordenação e articulação, absolutamente centrais para poder assumir opções claras em termos de captação de investimento e fixação de capital social. De Trás-os-Montes ao Alentejo, passando pela zona da Serra da Estrela, existe na maioria dos casos uma redundância em termos dos clusters em que se quer apostar, quando na verdade a dimensão do país e em particular do interior não o permite. Muito importante conseguir corrigir esta lacuna e criar as condições para verdadeiras agendas estratégicas de valor em regiões como o Douro. A aposta na enologia e no turismo de excelência de que nos fala Célia Varela a propósito do seu trabalho é o melhor exemplo do percurso a fazer.

Importa de facto reforçar esta aposta estratégica e o papel dos Clusters e dos Parques de Ciência e Tecnologia pode ser determinante neste domínio. Nunca como agora foi fundamental que se definisse uma coordenação clara entre poderes públicos e entidades privadas em sede da especialização assumida para cada território e a partir daí sinalizar um programa claro de criação de condições de contexto positivo para a captação de investimento e a fixação de talentos. O Douro tem que saber reforçar o seu compromisso inteligente entre uma tradição que faz parte da sua identidade e um sentido de inovação que deve mobilizar todos os que integram esta dimensão de inteligência coletiva territorial.

É preciso perceber que a aposta em regiões como o Douro não se faz por decreto. O papel das políticas públicas é central na orientação estratégica das opções que devem ser feitas e terá que haver por parte dos diferentes atores do território - municípios, universidades e institutos politécnicos, associações empresariais, centros de inovação, entre outros - uma definição clara das áreas de especialização estratégica para as quais devem ser sinalizados os esforços colaborativos de captação de investimento e fixação de recursos humanos e talentos. Se esta não for a estratégia, continuaremos a assistir a uma competição desenfreada e sem qualquer racionalidade ao longo do território pela mesma especialização estratégica. A insustentável leveza da aposta no Douro é um desafio que apela a um imperativo de modernidade e inteligência coletiva daqui para a frente. No Douro, de facto, algo de novo.

(Nota: o autor escreve segundo o Antigo Acordo Ortográfico)

Francisco Jaime Quesado, Economista e Gestor - Especialista em Inovação e Competitividade

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