O estranho caso de Buzz Lightyear

Há mais de cinco anos que Angus MacLane e a sua equipa na Pixar estavam a trabalhar em "Lightyear", o novo filme de animação que antecede temporalmente todos os eventos da saga Toy Story.

A expectativa era intensa e a fasquia muito elevada, dado o lugar de culto que os quatro filmes Toy Story atingiram não apenas no género de animação, mas no imaginário colectivo dos amantes de cinema. Angus MacLane disse numa mesa redonda em que participei que este era o filme que sempre quis fazer. Mas tenho a sensação de que este não era o filme que os fãs de Toy Story queriam ver.

Um indício disso é que o fim-de-semana de estreia na América do Norte trouxe apenas 51 milhões de dólares em receitas de bilheteira, bem abaixo dos 70 milhões que os analistas previam.

Talvez as críticas mistas tenham contribuído para este desempenho algo tépido, assim como a controvérsia em torno de um beijo entre duas pessoas do mesmo sexo algures na trama. O beijo tinha sido retirado e depois foi reintroduzido, o que deixou em fúria segmentos mais conservadores da audiência que não querem que os filhos sejam expostos a essa diversidade. A Disney já está na mira dos conservadores americanos por se ter oposto à legislação que proíbe a menção de conversas relacionadas com homossexualidade nas escolas, e "Lightyear" veio acicatar ainda mais esse ultraje.

Controvérsias à parte, o estranho neste filme é a narrativa. A produção é visualmente estonteante, cheia de detalhes incríveis e muitos furos acima de tudo o que já vimos em animação. A versão original em inglês, com Chris Evans no papel de Buzz, é praticamente perfeita. Os apontamentos cómicos são deliciosos e bem distribuídos. O gato robótico Sox é um absoluto prazer e possivelmente o novo personagem mais bem conseguido de todo este universo. Há imensa acção e robôs alienígenas a perder de vista. Há ciência quanto baste e várias piscadelas de olho aos filmes Toy Story.

Então, porque é que a reacção a "Lightyear" está a ser inconsistente? O novo filme da Pixar não é bem uma prequela da saga Toy Story, porque aqui Buzz Lightyear não é um brinquedo, é um Ranger do Espaço a sério. "Lightyear" é suposto ser o filme que Andy viu e mudou a sua vida, levando-o a querer um brinquedo Buzz pelo seu aniversário. Isso significa que estamos a falar de um filme que uma criança teria visto em torno de 1995 nos cinemas, numa altura pré-Internet, pré-redes sociais e pré-streaming.

É isto que não faz muito sentido. A narrativa de "Lightyear" consegue ser demasiado filosófica e trágica a espaços, de uma forma que não se alinha bem com o que Andy teria visto no cinema. O beijo entre duas lésbicas certamente nunca teria sido incluído num filme de animação em meados dos anos noventa.

Até mesmo as questões morais e temporais levantadas na história parecem demasiado pesadas para o que este filme é suposto ser - a origem do herói do espaço que inspirou Andy em criança. Já para não falar do nó cerebral que sucede quando se revela a identidade de Zurg, o tirano interplanetário e inimigo mortal de Buzz.

"Este fato significa alguma coisa", diz o ranger do espaço no início do trailer oficial do filme. "Não está só a proteger o teu corpo, está a proteger o universo." Era mais disso, das aventuras intergalácticas do bem contra o mal, que teria feito sentido mostrar.

Sendo uma produção exímia e um feito artístico em nome próprio, "Lightyear" é um filme que faz muito mais sentido de forma isolada e situada em 2022. É por isso que, apesar de tudo, vale a pena ir ver.

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