Opinião

O estranho caso do gadget banido

O primeiro produto da Lora DiCarlo, Osé
O primeiro produto da Lora DiCarlo, Osé

A CTA rescindiu o prémio ao Osé dizendo que tinha o direito de desqualificar candidaturas consideradas “imorais, obscenas, indecentes, profanas”

Quem vai ao CES em Las Vegas sabe que há coisas fatais como o destino: ficar hora e meia na fila para a conferência da Samsung; ser convidado para uma dúzia de festas e recepções à mesma hora; viver de Starbucks ou Coffee Bean a partir das sete da manhã; e ser aliciado a cada trinta passos por promotores que levam na mão pequenos flyers com mulheres nuas e promessa de horas de prazer infinito.

Ali mesmo ao lado da Strip, onde a mega exposição se reparte entre o Venetian, o Sands, o Westgate, o Wynn, Aria, Vdara, Renaissance e o Centro de Convenções, há bordéis legais. A produtora de pornografia em realidade virtual Naughty America reserva todos os anos uma sala na feira de eletrónica. E aqui e ali entre televisões, frigoríficos e altifalantes inteligentes, esbarra-se por vezes com uns engenhos que se podem classificar como fora da caixa. No ano passado, foi apresentada no CES a boneca sexual robótica Solana, que é um pouco arrepiante.

É neste contexto que surge o estranho caso do brinquedo sexual Osé, desenvolvido pela empresa Lora DiCarlo em parceria com o laboratório de engenharia robótica da Oregon State University. O “massajador pessoal” tem oito patentes pendentes para inovações em robótica, biomimética e engenharia e contém tecnologia micro-robótica que “imita as sensações de uma boca, língua e dedos humanos.” A premissa é ser o “primeiro aparelho mãos livres para atingir o santo graal dos orgasmos”, explica a CEO da empresa, Lora Haddock, referindo-se a “orgasmos mistos.” Crente que a inovação do dispositivo não tem precedentes, Haddock submeteu o Osé à competição CES 2019 Innovation Awards, e os especialistas que fazem a atribuição dos prémios concordaram. O massajador recebeu a distinção, dando acesso direto da Lora DiCarlo a um stand no CES Unveiled, juntamente com outras invenções premiadas.

Só que não. Quando estavam em preparação para a missão a Las Vegas, as engenheiras da Lora DiCarlo (a empresa é maioritariamente constituída por mulheres) foram notificadas pela Consumer Technology Association (CTA) que a distinção tinha sido rescindida e elas não poderiam estar no CES Unveiled ou mostrarem o produto no resto do espaço de exposição. A CTA, que no ano passado permitiu a apresentação de uma boneca sexual robótica para homens, rescindiu o prémio ao massajador Osé dizendo que tinha o direito de desqualificar candidaturas consideradas “imorais, obscenas, indecentes, profanas.” O que quer que isso signifique neste caso.

Não satisfeitas com a explicação, as executivas da Lora DiCarlo ripostaram e receberam então uma carta com um racional diferente. Aqui, o CEO da CTA Gary Shapiro e a número dois Karen Chupka argumentaram que o Osé não encaixava na categoria de robótica, apesar de ter sido desenvolvido em parceria com o 4º melhor laboratório de robótica dos Estados Unidos.

A conclusão de Lora Haddock é que a CTA tem um preconceito em relação a gadgets virados para o prazer feminino, uma vez que a organização não apresentou objeções contra produtos virados para o prazer masculino. É verdadeiramente incompreensível. Em especial sabendo que a CTA – e o próprio Gary Shapiro – têm dado imenso destaque ao combate à desigualdade de género na tecnologia.

Até mesmo numa feira tão gigantesca como esta há considerações a cheirar a mofo que não fazem sentido em 2019. Quando soube do sucedido, um dia antes da abertura do evento, apercebi-me de algo que me escapou em vários anos de ida ao CES: há uma zona específica para gadgets dedicados às mulheres, tais como bombas para tirar leite, mas a maioria do espaço é “vendido” aos (muito mais) homens que frequentam a feira. Será que a CTA pensou que um brinquedo sexual para mulheres seria ofensivo para eles? Porque se concentraram neste produto entre cerca de 20 mil que foram lançados na feira?

A decisão, ironicamente, saiu pela culatra. A Lora DiCarlo foi convidada a mostrar o Osé no Showstoppers, um espaço com inovações no hotel Wynn por onde passam muitos jornalistas e investidores numa noite por convite. E a polémica acabou por gerar mais buzz negativo para a CTA que provavelmente teria se tivessem mantido a distinção atribuída ao Osé.

No entanto, este é mais um reflexo negativo de uma indústria que está crivada de preconceitos de género, não importa quão progressistas algumas vozes sejam em Silicon Valley – ou quantas doutoradas em engenharia uma startup tenha.

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