O estranho caso dos abacates estrangeiros

No início era o turismo - "não vai durar". Depois veio o imobiliário - "vai rebentar". Depois vieram os estrangeiros em catadupa - "não são assim tantos". E depois veio o desafio de integrar toda esta gente num Portugal novo e cosmopolita - e aqui sim, estamos a falhar. Sendo que a culpa é dos abacates.

Antes da fruta, os factos - alguns merecem explicação. Que o turismo dura mais que o coelhinho da Duracell já ninguém duvida. Que o imobiliário ficará de pé depois de ter sobrevivido à pior crise mundial de sempre acho que também não é questão. Mas ainda há quem desconfie se tudo isso evoluirá para uma relação séria e para a vida.

Pois bem:
Um estudo divulgado nesta semana pela JLL, noticiado aqui mesmo no Dinheiro Vivo, mostra que entre 2012 e 2020 o peso da procura estrangeira no total das casas compradas em Portugal passou de 5% para 11%. Atentem bem: 11%. Mais de um décimo de todas as casas compradas no país...

Já a Pordata, usando um intervalo ainda mais apertado, de 2015 a 2020, diz-nos que o número de estrangeiros residentes em Portugal cresceu de 383 mil para 661 mil. Ou seja, quase o dobro. E desta vez não são os fluxos dos PALOP ou dos países de Leste - são mesmo os nossos bem instalados vizinhos europeus. Os franceses (que passaram de oito para 25 mil), os ingleses (17 para 46 mil) e ainda mais os italianos (de 6 para 28 mil pessoas!) E atenção: tudo isto é estimado muito por baixo, porque onde há Schengen há liberdade. Ou seja, milhares de europeus nunca se deram ao trabalho de registar o que quer que seja.

Nos estudantes, a história repete-se. Em 2015, segundo dados do governo, havia 33 mil estrangeiros inscritos nas nossas universidades. Hoje há 65 mil. E ao contrário da aceção generalizada, só 18% são Erasmus.

E onde é que entram os tais abacates? É simples. Porto e Lisboa, que levam obviamente a maior fatia desta revolução, estão hoje em dia pejados de restaurantes healthy-brunchy, com o menu completo de ovos escalfados, kombuchas, cervejas artesanais e tostas de abacate. Nada disto é um problema. Mais uma tendência de consumo passageira, dirão. Só que não. Aqui não.

Entre num restaurante tradicional em Campo de Ourique, na Campanhã ou em qualquer bairro citadino já habitado por muitos destes estrangeiros residentes e, mau grado essa mudança, as pessoas que vê nas mesas são as mesmas de sempre. Os portugueses de toda a vida. Entre nos tais impérios modernos representados pelo abacate, plant-based-gluten-free-cenas, e é lá que encontra o grosso da comunidade jovem de expats. Estão ali todos, como poderiam estar em Copenhaga, Brooklyn ou Melbourne. Não comem caldo verde nem bacalhau à Brás, como - e esta é a grande questão - não ouvem fado, nem se aproximam de concertos, teatros ou de qualquer um dos autores nacionais.

Estão cá, por mais que nos custe ouvir, como podiam estar nas Bahamas: pelo tempo, pelos preços e pela simpatia da malta. E isso, a mim, insulta-me. Não pode acontecer.

O próximo capítulo desta história de sucesso tem de passar pela aproximação de todas as comunidades. Por pensarmos nos grandes projetos urbanos e nos programas culturais de futuro como instrumentos que não sirvam nenhum grupo, mas que forcem a mistura de todos. Abacates, alfacinhas e o que for.

Presidente e diretor criativo do Time Out Market

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