O Euro, as tribos e o PCP

Vivemos mais um Campeonato Europeu de Futebol, provavelmente o desporto que, à escala global, mais paixões desperta. No nosso país, onde o futebol é rei, os adeptos estabelecem com os seus clubes uma relação que, sendo quase só feita de emoção, deixa frequentemente pouco espaço para a razão.

Acontece que esse relacionamento não é apenas individual, isto é, entre o clube e cada fã. No seu conjunto estes formam uma rede de pessoas que, apesar da sua heterogeneidade, se encontram unidas por uma paixão comum: o amor ao seu clube. No âmbito do marketing, a essa rede chama-se comunidade de consumidores ou, mais simplesmente, tribo.

O futebol, pela carga emocional que envolve, é um contexto propício à formação de tribos - porque os que compartilham a simpatia por um clube (ou uma seleção nacional) gostam de a celebrar em conjunto. Contudo, não é apenas nesse mundo que o fenómeno tribal tende a emergir. Também no âmbito da política (isto para não falar no domínio da religião) algo de idêntico acontece.

Em Portugal, o PCP é, provavelmente, o partido político onde o comportamento tribal é mais evidente. Até porque não se trata de um fenómeno exclusivamente bottom-up. Muito do carácter tribal resulta também de uma estratégia de cima para baixo no sentido de fomentar a criação de uma comunidade de simpatizantes - no mundo do futebol diríamos adeptos e no mundo religioso diríamos crentes - unidos pelo mesmo ideal.

As ferramentas de marketing estão todas lá. Em primeiro lugar, as grandes causas são de natureza profundamente emocional. Mais do que lutar por bens materiais, os comunistas defendem a criação de uma sociedade sem classes. Os "amanhãs que cantam" encerram uma promessa que vai muito para além de meros aumentos salariais - é a esperança de um mundo melhor, mais justo e igualitário, onde todos tenham acesso àquilo de que efetivamente precisam.

A segunda ferramenta para criação de uma tribo dinâmica passa pela construção de uma narrativa sólida em torno de pessoas, histórias e mitos. Marx, Lenine, Cunhal, a luta antifascista e a evasão de Peniche são, entre muitas outras, peças de um puzzle que ajudam a construir uma narrativa que, obviamente, dá força à ligação emocional ao partido. E quando a História não convém à narrativa, é simples: omite-se um facto ou personalidade e tudo passa a bater certo.

Os símbolos de pertença e os eventos são a terceira ferramenta estratégica para dinamização da tribo. Basta pensar em grandes eventos como a Festa do Avante ou o 1.º de Maio, pontos altos na agenda comunista, para se tornar evidente o grande profissionalismo com que são organizados, bem patente, aliás, nesta época de pandemia.

Em suma, o carácter tribal do PCP é, provavelmente, uma das razões por detrás da sua longevidade e dinâmica atual, especialmente quando comparadas com as de partidos congéneres em Espanha, Itália e França. E o que é interessante é que muitas das ferramentas de marketing utilizadas na dinamização de comunidades de consumidores estão também aqui presentes.

Sei que haverá sempre alguém que dirá: isso é uma (re)interpretação abusiva da realidade do PCP. Até pode ser, mas não deixa de constituir um pequeníssimo contributo para a compreensão da realidade por um prisma revolucionariamente diferente.

Carlos Brito, vice-reitor da Universidade Portucalense

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