O êxodo da Califórnia foi manifestamente exagerado

Os engarrafamentos históricos da auto-estrada 405, que liga o norte e sul de Los Angeles, tornaram-se suportáveis. Passou a haver lugares para estacionar perto da areia na praia de Santa Mónica. A azáfama ouvida madrugada dentro aos fins-de-semana foi substituída pelo silêncio. Nunca mais houve concertos no Hollywood Bowl e o teatro Pantages ficou às escuras.

Um depois do outro, amigos anunciaram o adeus a Los Angeles, paralisada pela pandemia, incapaz de continuar a distribuir sonhos na indústria do entretenimento. LA foi o condado mais afectado por covid-19 nos Estados Unidos, com 1,2 milhões de casos confirmados e quase 24 mil mortos. Um desastre sem precedentes numa das cidades mais caras do país para se viver.

Mas os camiões de mudanças que se tornaram frequentes no pico do confinamento não saíram só de Los Angeles. Saíram ainda em maior número de São Francisco, igualmente devastada pela crise e mais cara que a cidade dos anjos. A relocalização de milhares de pessoas levou especialistas a declararem um êxodo da Califórnia, multiplicando-se histórias e análises sobre o fim de uma era no Golden State.

Este êxodo foi inclusive usado como acessório de propaganda política, aparentemente comprovando o fracasso da esquerda liberal que comanda o estado e o horror de impostos elevados, gasolina mais cara e preços de habitação proibitivos. Ouviram falar das celebridades que começaram a "fugir" de Hollywood? De como a Califórnia se tornou um inferno insuportável? Até os Óscares perderam o glamour de outros tempos. Juntando-se a isso a crise da população sem-abrigo e os incêndios selvagens que assolam o estado todos os Verões, o cocktail californiano pareceu, justamente, azedar.

Mas as notícias de um êxodo da Califórnia foram manifestamente exageradas. Sim, Los Angeles e São Francisco perderam dezenas de milhares de habitantes. Só de LA saíram 74 mil pessoas até Julho de 2020, enquanto São Francisco, novo coração de Silicon Valley, perdeu 89 mil lares até ao final do ano. A situação aqui foi tão dramática que, segundo o California Policy Lab, o saldo líquido de saídas aumentou 649% entre Março de 2020 e Março de 2021. A falácia está em chamar-lhe um êxodo da Califórnia.

A esmagadora maioria das pessoas que saíram das duas cidades relocalizaram-se noutras partes do estado, buscando preços mais razoáveis e vidas mais tranquilas mantendo os privilégios da vida na Califórnia. É certo que estados como Colorado, Nevada e Texas vêm atraindo ex-californianos a um ritmo ascendente nos últimos anos, em particular porque é tão caro viver na Califórnia. No entanto, os números continuam a não suportar esta ideia de partidas em massa.

Foi isso mesmo que sublinhou a revista Forbes num artigo recente, referindo os mesmos dados do California Policy Lab e contrariando a chusma de notícias apocalípticas.

A Califórnia é a quinta maior economia do mundo e a mais valiosa dos Estados Unidos. De todas as pessoas que saíram dos centros urbanos, apenas cerca de 20% realmente mudaram para outro estado. A costa dourada que se estende por 1350 km continua a liderar os EUA em termos de tecnologia, biotecnologia, energia, entretenimento, manufactura e agricultura.

Mais que qualquer outra coisa, o problema é a iniquidade. Há um fosso gigante entre os ultra-ricos, a classe média e os pobres - tão pobres que um pequeno incidente pode atirá-los para a rua a viver em tendas. Os impostos elevados permitem oferecer melhores redes de protecção social que noutras bandas, mas a injustiça da estrutura económica permanece intacta.

A disparidade de compensações é astronómica; as oportunidades para quem vem de baixo são mais escassas e raramente bem pagas. A Califórnia continua a valer a pena, mas o estado de coisas mostrou que até o estado mais progressista não consegue corrigir os males do capitalismo desenfreado.

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