Opinião

O facebook das vacas

BovControl

Sim, já há redes sociais para bovinos: eles não as usam para tirar selfies, nem para partilhar fotos de gatinhos e cãezinhos fofos e nem para se indignar por tudo e por nada – para isso bastam as redes sociais dos humanos.

Eles aliás nem as usam. Quem as usa são os latifundiários, os pecuaristas, os agricultores, os agrónomos de todo o planeta que agora têm ao dispor uma “internet das vacas” com todos os bovinos do mundo, sem infoexcluídos, perfeitamente conectados, avaliados e rotulados. Parece uma daquelas metáforas, com animais, sobre a alienação da vida moderna mas não é.

O mais interessante é que a BovControl, eis o nome da rede, não partiu da cabeça de nenhum nerd de Harvard mas sim da mente de brasileiros arrojados e inovadores. A BovControl usa a internet das coisas, a inteligência artificial e informação de satélites para facilitar a gestão de dados de 30 mil agricultores de todo o mundo que, dessa forma, podem, desde determinar o volume de palha dado a cada boi até adaptar as suas propriedades às leis ambientais.

Junta-se a inovações de topo no mundo, como as coleiras da holandesa Conecterra, que vigiam os hábitos de alimentação das vacas; os pedómetros da israelita Afimilk, que alertam os pecuaristas para quando elas caminham mais, sinal de que estão no cio; os vigilantes de acidez, e portanto doenças, no estômago, da inglesa Well Cow; os alertas, por SMS, de que a vaca está prestes a parir, inventados pela irlandesa Moocall; e os sistemas automáticos de medição da qualidade do leite na ordenha, como o norte-americano Astronaut.

Por outro lado, como nos processos de desenvolvimento de tecnologias digitais o BovControl funciona num ambiente de partilha, desenvolvem-se novos produtos e ideias – na Nigéria, pequenos produtores acederam a micro-crédito bancário usando a plataforma como garantia. “E a cada semana vemos coisas novas em toda a cadeia da pecuária, inclusivamente dos pontos de vista financeiro, de higiene e até de beleza”, disse ao jornal O Estado de S. Paulo o inventor da rede social animal, cujo nome, Danilo Leão, parece homenagem ao rei de todos eles.

O agronegócio brasileiro, tantas vezes aqui criticado por estar associado a recuos civilizatórios indefensáveis, como o incentivo ao trabalho escravo ou o desmatamento da Amazônia, e por ser defendido por uma bandada parlamentar composta na sua maioria por deputados do mais retrógrado e clientelista que o país produz, não é poderoso por acaso.

É-o por ser um oásis na economia do país, a oitava do mundo. Vale um quinto do PIB; mais de 40% das exportações; produz 200 milhões de toneladas de grãos por ano, superando os Estados Unidos, seu maior concorrente a nível global; dá emprego a quase 30 milhões de brasileiros. E ainda tem tempo para a inovação, com iniciativas como a criação do BovControl, o facebook das vacas.

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