Opinião: Ricardo Reis

O filho competente

justiça

Sempre que um filho ganha uma promoção, defende-se o seu mérito contra as acusações de compadrio

Nalgumas profissões é comum os filhos seguirem as passadas de pais bem-sucedidos e terem carreiras de sucesso. A política e o direito são dois exemplos frequentes. Sempre que um filho ganha uma promoção, defende-se o seu mérito contra as acusações de compadrio.

No direito, o mérito é subjetivo, porque depende muito da avaliação dos pares. Nas faculdades, é considerado ser bom académico aquele que os outros professores respeitam. Mas se é filho de um colega, num meio pequeno, estão naturalmente predispostos a perdoar-lhe falhas e a ter receio de ofender os pais. Além disso, qualquer grupo social cria normas internas de conduta e mesmo tiques de linguagem. Um filho aprendeu a comportar-se dessa forma desde que nasceu. Por isso, no seu estilo, vai sempre parecer competente perante os juízes ou outros advogados e vai ganhar mais casos em tribunal, mesmo que a substância dos seus argumentos não seja de grande qualidade.

Na política, o mérito é avaliado frequentemente com base nos cargos que aparecem no currículo. Mas a ascendência genealógica conta precisamente na obtenção do primeiro cargo. Ter sido secretário de Estado ou adjunto tanto prova mérito para ser ministro como prova compadrio no passado. Além disso, destacar-se da multidão e atrair a atenção dos media e a benevolência dos opinion makers no início faz toda a diferença para a carreira, e o apelido e os contactos da família contam para isso.

Uma comparação engraçada vem com o mundo do futebol, sempre útil porque tantas pessoas o acompanham. É muito frequente ver filhos de futebolistas entre os juvenis promissores dos principais clubes. Mas nesse mundo competitivo há medidas frias e duras do mérito no campo. Entre profissionais maduros, ao fim de uns golos marcados ou falhados, ninguém quer saber do apelido do jogador ou da academia em que treinou. Quantos filhos de futebolistas de sucesso são também eles futebolistas de sucesso? Poucos, e muito menos do que filhos de ministros ou juristas.

Podemos ser mais sistemáticos nesta comparação. No mundo financeiro, o nome dos pais ajuda a convencer as pessoas a entregar as suas poupanças para serem geridas. As comissões cobradas alimentam a maioria dos lucros nessa indústria, criando as suas dinastias. Mas, no retorno que cada fundo depois obtém, a frieza dos euros ganhos e perdidos revela quem tem mérito. Dois economistas, Chuprinin e Sosyura, olharam para os fundos geridos por uma só pessoa e compararam os seus retornos quando a educação formal, qualificações e experiência do gestor da carteira era o mesmo. A diferença era que alguns gestores vinham de famílias mais ricas e outros de meios mais modestos. Os mais privilegiados nas suas origens, em média, têm retornos mais baixos.

E então? Se o filho do jurista ganha mais processos e o do ministro recolhe mais votos, eles são melhores. Mas nesse caso assuma-se que o compadrio acrescenta valor sem se tentar disfarçá-lo com máscaras de competência.

Professor de Economia na London School of Economics

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