Opinião: Ana Rita Guerra

O filme da década

The Social Network Mark Zuckerberg interpretado por Jesse Eisenberg

A arte mediu Zuckerberg antes de nós: um génio imberbe e ambicioso, nada incomodado com a torção dos factos, seguindo em frente como uma debulhadora

A aproximação do fim do ano traz também o fim da década, um momento de significado portentoso tendo em conta tudo o que aconteceu nos últimos dez anos. O mundo mudou irreversivelmente, mas não da forma que esperávamos. Carros voadores nem vê-los, o mais parecido com empregados domésticos robóticos são os aspiradores Roomba, o teletransporte não se materializou e ainda não nos alimentamos com nanobots.

A futurologia tende a ser optimista e a olhar para a sociedade vindoura como superior, recipiente do progresso científico e tecnológico, com o benefício da expansão do conhecimento. Em muitos aspectos, esta é a melhor versão do mundo que alguma vez conhecemos. Em tantos outros, é impossível esconder a sensação de estarmos a regredir. E difícil também afastar a suspeita de que este gás inodoro que está em fuga no mundo virtual poderá envenenar-nos a todos.

No final da década, é assombroso olhar para o princípio e perceber como a arte prenunciou a realidade. O trailer daquele que é talvez o melhor filme dos anos dez, “A Rede Social” de David Fincher, começa com “Creep” dos Radiohead cantada em coro por vozes femininas. Sabendo o que sabemos hoje sobre Mark Zuckerberg, o lastro do império Facebook e o impacto que está a ter sobre as pessoas e as relações, a letra é assombrosa: “I don’t care if it hurts/I wanna have control/I wanna a perfect body/I wanna a perfect soul.”

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Nas imagens, o antigo muro do Facebook transporta-nos para tempos que pareciam mais simples. Este trailer, uma peça fenomenal de cinematografia tão boa quanto o próprio filme, prenuncia em 2010 o que estava para vir nos dez anos seguintes. Um génio imberbe e ambicioso, nada incomodado com a torção dos factos e da verdade, seguindo em frente como uma debulhadora, partindo tudo. Sem tempo para contemplar regras, sem especial sentido de responsabilidade, confiante na capacidade de evitar castigo.

Tudo isto voltou a acontecer várias vezes ao longo dos últimos dez anos, como páginas rescritas do mesmo guião, desembocando sempre em condenações toscas e inconsequentes.

Para compreender as formas fundamentais em que (parte d)o mundo mudou nesta década, é preciso olhar para o papel do Facebook e dos domínios que Zuckerberg viria a comprar, notavelmente Instagram e WhatsApp.

Quando “A Rede Social” saiu, em Outubro de 2010, o seu alcance de 500 milhões de utilizadores era um fenómeno nunca antes visto. Nenhum meio tivera até então tamanho impacto. Ninguém sabia o que fazer com isto, uma rede que punha a seis graus de separação potencialmente toda a gente no mundo com acesso à internet. Zuckerberg destruiu barreiras e levou para o mundo digital o diagrama da vida social das pessoas. Era isto, e soava a futuro.

O que vemos hoje, ao olhar para a vastidão que o Facebook cobre, faz lembrar a ilha de lixo que anda a boiar no oceano Pacífico. Não foi por falta de aviso – “A Rede Social” alinhou os elementos todos à nossa frente. Foi por falta de transparência. Por falta de consequência. Porque nos era impossível ver o mamute inteiro e o poder das suas presas.

Agora, com a vantagem da experiência, é necessário olhar de frente para o problema e tomar decisões drásticas para impedir que este faroeste digital seja indomável para sempre. A cena final do filme, com Mark Zuckerberg a navegar solitariamente pela sua criação ao som de “Baby, You’re A Rich Man”, dos The Beatles, é precedida de uma conversa em que Marilyn Delpy lhe diz: “Não és um patife, Mark. Simplesmente estás a tentar muito ser um.” David Fincher ofereceu-nos um final que foi apenas um princípio. Alguém tem de sonhar uma sequela para a próxima década.

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