Opinião

O fim do clickbait

Fake news, clickbait

O Facebook, acossado pelas fake news e pelas trapalhadas das eleições de 2016, está a pôr um travão no modelo clickbait

No final do trailer de “Skyscrapper”, a próxima grande aventura de Dwayne Johnson, ficamos com a sensação de ter visto o filme todo. Haverá sempre quem queira ver “The Rock” em acção num cenário diferente, ainda por cima com Neve Campbell (“Scream”) a fazer de mulher dele. Mas o intuito de um trailer é aguçar a curiosidade da audiência para a compelir a ir ver o filme. Se as principais atracções da película são reveladas, perde-se o propósito. O trailer é suposto ser uma isca, uma espécie de clickbait visual que põe aquele título no radar. O que não pode ser é uma farsa, acenar com coisas que não estão no filme ou fingir que se trata de uma história diferente. Esse é o grande problema do clickbait que nos enche os olhos no feed de notícias: dar-nos uma comichão que depois se revela impossível de coçar.

Viram o que fiz no título? Usar clickbait para falar de clickbait talvez ajude a provar este ponto.

A estratégia de apelar à curiosidade natural revelou-se um tremendo sucesso para os Youtubers que prometem grandes tragédias urbanas em letras garrafais, para os sites que lhe garantem que não vai acreditar na transformação incrível de celebridades e para os blogues que conseguem vender banha da cobra sem terem de fingir que é óleo perfumado. O sensacionalismo alastrou-se, como é óbvio, aos meios de comunicação “sérios”, porque passaram a ter de competir por períodos de atenção cada vez mais curtos e mais dependentes das partilhas – esses indicadores malfadados que ditam o que é viral e o que fica engavetado.

E agora que estamos todos neste barco, os efeitos negativos são mais que evidentes e alimentam-se uns aos outros. O leitor não gosta de se sentir defraudado pelo título, mas o editor sabe que se revelar ali a informação mais importante ninguém vai clicar para realmente ler o artigo. O leitor acha que percebeu tudo ao ler o título, por isso corre a ir partilhá-lo adicionando um comentário indignado que não faz sentido. O autor sabe que o leitor se calhar nem passa do título, por isso dá-se à liberdade de manipular informação que depois não tem de justificar cabalmente no texto.

É isto que explica o sucesso de sites que traficam nesta confusão de clickbait, desconfiança dos média tradicionais e câmaras de eco. Já perdi a conta às vezes que corrigi amigos que partilharam “notícias” sobre como a gasolina está em baixa histórica nos Estados Unidos; a minha carteira diz o contrário quando vai ao posto de combustível, mas tal não impede sites portugueses menos idóneos de usarem números totalmente inventados para atiçarem a indignação nacional.

Como um dos grandes – senão mesmo o principal – responsável por este estado de coisas, o Facebook viu-se obrigado a fazer mudanças no seu algoritmo para castigar o clickbait. E só muito recentemente comecei a perceber o real impacto dessa política, com um exemplo forte: a plataforma colaborativa de notícias Blasting News mudou de forma radical a sua postura para cumprir os novos requisitos do Facebook.

O site, que começou em italiano e tem sede na Suíça, tornou-se num caso de sucesso com versões em dezenas de países e um formato diferente – qualquer pessoa pode tentar submeter um artigo, que é verificado e editado por uma equipa certificada antes de ser publicado. Para crescer, a Blasting News precisou de uma máquina gigante de promoção, muita gente a escrever e muito suporte das redes sociais para tornar os artigos virais. Como os autores recebem por número de visualizações, o clickbait tornou-se um recurso muito utilizado – algo que se tornou evidente na versão portuguesa do site (que neste momento parece estar pouco ou nada activo).

O Facebook, acossado pelas fake news e pelas trapalhadas das eleições de 2016, pôs um travão nesse modelo. Alguns blogues queixaram-se de censura; mas o que a Blasting News fez foi mudar as suas regras e implementar uma política muito restritiva quanto a títulos que podem ser considerados clickbait, de tal forma que a instrução é para dar o máximo de informação, mesmo que tal faça descer o número de cliques.

A mudança de estratégia do Facebook também será mais visível este Verão, quando a rede social lançar uma secção de notícias em vídeo denominada “Watch.” A ideia é que esta secção seja reservada a notícias fidedignas, de elevada qualidade, com um perfil que legitimará as fontes – ao contrário, por exemplo, da coluna de “trending news” do lado direito que vai finalmente desaparecer.

De acordo com a Axios, os parceiros iniciais do “Watch” são a ABC, CNN, Univision, ATTN, Fox, Mic e Advanced Local. Reputação é a palavra de ordem, ainda que muita gente atribua a algumas destas redes um pendor partidário com o qual não concordam. Sabemos que o vídeo não é propriamente um antídoto para o clickbait – afinal, é o ganha-pão de Alex Jones e do seu Infowars, mas é positivo que o Facebook esteja a forçar estes sites a irem para as sombras ou a mudarem de postura. Será possível conseguir o fim do clickbait? Talvez não, mas há que tentar. Duvido que as meninas Diamond & Silk deixem de promover teorias da conspiração, mas pelo menos haverá menos gente exposta a elas.

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