O futuro que a eles pertence

Tenho um filho que não quer saber de roupa de marca, de marcas em geral, e tem como ambição ter o mínimo de coisas possível. Por exemplo, eu é que peço para lhe dar um fato de banho novo e ele concede. Quem não gostava de ter um filho assim? Uma maravilha de vos fazer inveja. Por outro lado, não sabe ter dinheiro nem percebe bem para que serve. Gosta mesmo é de amigos, de poder ir onde lhe apetece, de fumar e de comer bitoques acompanhados a imperiais, ao som de discussões sobre a vida, Deus, valores e desígnios. Estuda quando não tem mais nada para fazer e trabalha quando faltam os cigarros. Tiram-lhe isto, tiram-lhe a vida.

É o amigo. O que não gasta em modas, gasta nisto: gasóleo, cigarros, carregamentos de telemóvel e tudo o que tenha como destino o esgoto passadas três horas de ser adquirido. Então, o que fazes amanhã? Nunca sabe; e acaba os dias esgotado por tanto os viver. E os exames? Também não sabe quando são. Se fosse da idade dele, seria o meu melhor amigo, sem qualquer dúvida. Falido, mas amigo. Sonhador, a habitar na estratosfera dos espíritos, mas o meu melhor amigo. Sendo apenas mãe, vivo com o coração apertado de medo que um dia a vida lhe venha pedir contas pelos tempos em que habitou na estratosfera dos espíritos - mas a transbordar de orgulho.

Tenho outro filho que escreve na agenda as horas que pode gastar com os amigos (se não escreve, parece). Faz contas ao dinheiro que lhe está sempre a sobrar e acha estúpido tudo o que não é lógico e racional. É a formiguinha da fábula, sendo que esta minha formiguinha acha que o inverno nunca lhe vai chegar. Uma maravilha em autoconfiança, autoestima e capacidade de trabalho. Fosse eu da idade dele e escolheria a mesa das imperiais do outro, ele que me perdoe. E ficava ali, a admirá-lo de longe. Sendo apenas mãe, vivo com o coração apertado de medo que o inverno lhe chegue sem o avisar, mas a transbordar de orgulho.

Não querendo ser exaustiva, acabo o relato no terceiro filho para chegar onde este artigo me leva. Este meu filho não está na moda, ele cria a moda, como gosta de dizer. Daqui a umas semanas estão "todos" a usar estes ténis, vão ver. E é mesmo assim. Tem imã, tem graça, humor apurado, não precisa de dinheiro para nada e os amigos caem-lhe do céu e com razão. Fixa-nos com uns olhos que leem a alma e sorri como se já fosse um homem. Como diz a minha mãe, "apanha tudo" com uma intuição de animal da selva (esta digo eu). Teima até ao limite da paciência humana e desafia a injustiça e a incoerência, que fareja a léguas, com arrogância e insistência. Este só estuda sob coação, como quem sobe uma montanha com sapatos apertados. Encanta, e isso tem bastado. Fosse eu da idade dele, e era o meu amigo das confidências, dos conselhos, da cumplicidade e das piadas secas e certeiras. Sendo apenas mãe, insisto em educá-lo mas não tenho o coração apertado de medo e não sei porquê, apenas a transbordar de orgulho daquele sorriso condescendente de homem feito.

De todos, quem vai "chegar lá"? Quem vai ser o mais realizado, feliz, o homem de sucesso, o bom profissional, o exemplo do seu tempo? Aquele que tem o essencial que os tempos modernos exigem, que a sociedade reclama e que encaixa nos modelos que conhecemos? Nenhum e todos, é o que vos digo. Impossível saber.

O que achamos não interessa nada, os nossos medos muito menos e aquilo que projetamos é ficção científica de segunda categoria. Os filhos, as pessoas, aproveitam-se, vivem-se, não são projetos. Escrevam isto para se lembrarem de não ter medo pelos vossos filhos. O futuro é deles, nosso é apenas o presente.

Jurista

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