O governo de combate à indiferença

A esquerda promete, mesmo quando já ninguém acredita, a incrível façanha de tornar o país mais justo.

Entre a desilusão demolidora da assistente que me fazia o raio X ao siso já extraído, de quem não faz caso do novo governo liderado por António Costa, nem de qualquer outro, e as contas feitas às mulheres, independentes, velhas e novas caras do futuro executivo, aos seus problemas, desafios e debilidades, mil vezes a urgência de injetar esperança e perspectivas de futuro aos portugueses.

Não é a primeira vez que os socialistas chegam ao poder, o PS é um partido europeísta, mesmo sem um ministro para a Europa, o seu programa de governo não é irresponsável, António Costa é um político experiente e será, desejavelmente, melhor primeiro-ministro do que líder da oposição.

E a sua equipa é constituída por pessoas competentes, ainda que isso não baste para fazer um bom governo. Nem o acordo à esquerda, sendo um risco, significa a morte anunciada do futuro executivo, que de perigoso esquerdista tem muito pouco.

É hora de meter mãos à obra, depois de 51 dias desperdiçados pelo Presidente da República. Cavaco Silva gastou tanto tempo apenas para caucionar a sua decisão. Mais tarde, se as coisas correrem mal - oxalá não, porque como disse Marcelo, a felicidade de Costa será a felicidade de todos -, Cavaco Silva poderá sempre dizer que foram 51 dias de esforço, mas que, mais uma vez, ninguém o entendeu.

Agora Costa. O primeiro embate será o Orçamento do Estado para 2016. O novo primeiro-ministro terá que mostrar que, não só, o compromisso com o Bloco e o PCP  é para valer - estarão todos empenhados em provar isso mesmo -, mas também que é possível fazer diferente de Passos e Portas, sem comprometer o caminho de rigor das finanças públicas e de consolidação orçamental.

Uma legislatura não se resume a um orçamento, mas este será um indicador fundamental do sentido da gestão das políticas públicas.

Os socialistas prometeram fazer diferente, garantiram que seria possível chegar ao mesmo objetivo por outro caminho, sem arriscar os compromissos internacionais, com estabilidade, mas com menos austeridade.

A esquerda promete, mesmo quando já ninguém acredita, a incrível façanha de tornar o país mais justo. Costa terá um país à espera, sem complacência, de o abater. Meio país que não o quer e outra metade que duvida, mesmo não querendo, do que ele diz ser capaz.

Mil vezes a urgência de conquistar a confiança dos portugueses, e não só, das famílias, dos empresários e dos investidores, porque, para já, Costa tem garantido muito pouco além do desdém. O mesmo que tinha Passos Coelho, só que o ex-primeiro-ministro contou com o bode expiatório da crise para justificar as promessas frustradas. O país já não espera grande coisa e a indiferença é o grande combate do futuro governo.

Jornalista e diretora executiva do Dinheiro Vivo

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