O grande reset no emprego tecnológico

Ainda não chegámos ao final de Janeiro e 2023 já levou a mais despedimentos no sector tecnológico que a primeira metade inteira do ano anterior. Mais de 55 mil trabalhadores foram despedidos por 154 empresas desde que o ano começou e parece que não passa uma semana sem que uma nova empresa anuncie cortes.

Estes dados, compilados pelo Insider, mostram que aquilo que começou por ser uma onda de correcções no final de 2022 se tornou numa tempestade inadiável. É a casa-mãe da Google a despachar 12 mil empregados; é a Microsoft a cortar 10 mil; é a Amazon a adicionar 8 mil despedimentos aos 10 mil que já tinha anunciado em Novembro passado; é o Spotify a cortar 6% da sua força de trabalho, ou 600 pessoas. A lista engrossa a cada semana e indica uma grande reconfiguração do mercado tecnológico. Um autêntico reset depois de anos de crescimento desenfreado.

Já havia sinais de que algo assim ia acontecer a partir do Verão do ano passado, quando em vez de notícias de contratações e escassez de talento começámos a ouvir sussurros de despedimentos aqui e ali. A história mudou de forma radical, e inesperada por muitos.

Os anos de bonança da pandemia, pensaram executivos e investidores, iam trazer mudanças de hábitos e de consumo permanentes. Muitas das empresas que estão agora a despedir contrataram desenfreadamente durante a pandemia, exagerando no cálculo. Não que tenha sido um erro flagrante: houve uma altura em que pareceu que nunca íamos conseguir sair do ciclo vicioso de abertura e recuo, com variantes do coronavírus a deitar por terra os avanços anteriores e um desespero palpável com a situação. Havia questões sobre o regresso ao escritório, sobre o retorno de grandes eventos presenciais e sobre hábitos como a ida ao cinema, ao supermercado ou a restaurantes.

A realidade provou que os consumidores estavam mais ansiosos por regressar a hábitos do passado que por manter a panóplia de serviços que dispararam durante estes anos. É certo que muitas coisas que mudaram se estão a manter, como o trabalho híbrido ou a conveniência de serviços de entrega de comida e compras. Mas não ao nível necessário para justificar os tamanhos insuflados destas empresas.

Ao mesmo tempo, a inflação elevada e as taxas de juro em alta levaram a uma contração dos consumidores, colocando maior pressão numa série de "extras." É assim que chegamos a um ponto em que até o Spotify está a cortar trabalhadores, para lidar com a inversão do crescimento que experimentou desde 2020.

Esta grande reconfiguração contrasta tanto com a grande resignação de 2021 que à primeira vista nos deixa estonteados. A diferença que uns trimestres fazem. No entanto, olhando para os quadros das grandes tecnológicas e para as taxas de desemprego, é de sublinhar que a situação não se equipara a outros eventos de despedimentos em massa do passado. A taxa de desemprego nos Estados Unidos, onde o grosso destes despedimentos está a acontecer, é de 3,5%. É mais baixa que os 3,6% de Novembro e bem mais baixa que a média de longo prazo de 5,73%. É, no fundo, considerada uma situação de pleno emprego e muito distante dos 14,7% que se registaram em abril de 2020, no pico da pandemia.

Por outro lado, a maioria das tecnológicas que desataram a despedir continuam a ter agora mais pessoal do que tinham antes da pandemia. Ou seja: até ver, parece que estamos perante uma correcção de exageros e uma medida profilática para o caso de vir aí uma recessão.

Curiosamente, parece ter sido a gestão caótica do Twitter pelo novo dono Elon Musk que deu cobertura a todos estes anúncios desenfreados, uma vez que ele despediu mais de 80% dos quadros da empresa desde que tomou conta dela. A rede social, apesar de estar com muitos problemas, continua a funcionar com um esqueleto de funcionários.

E perante o caos público que se instalou na empresa, as outras beneficiaram de processos de cortes organizados e com compensações apropriadas aos funcionários despedidos. Noutro contexto, uma onda de despedimentos aos milhares levantaria enormes preocupações e até algum pânico no mercado. Isso não parece estar a acontecer, o que demonstra que o mercado percebe os fundamentos por detrás dos cortes.

O que se espera a partir de agora é perceber se a situação vai acalmar e se os trabalhadores despedidos vão encontrar abrigo noutros segmentos - fora da Big Tech - ou haverá uma aurora de startups, como muitas vezes acontece em alturas de aperto. E resta saber até que ponto estes cortes vão atingir os quadros internacionais das empresas, sabendo-se que é muito mais difícil (e caro) despedir na Europa que nos Estados Unidos.

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