O grande salto em frente

Não, não vou falar da campanha lançada por Mao Tsé-Tung no final da década de 50 do século passado com o propósito de fazer da China um país desenvolvido e igualitário num curto espaço de tempo. Como todos sabemos, o que se conseguiu em tempo infelizmente recorde foi um descalabro económico e social que se traduziu em dezenas de milhões de mortos.
A verdade, no entanto, é que o mundo precisa hoje de um enorme salto em frente. A situação pré-covid caracterizava-se por um conjunto de ameaças e tensões a que urgia dar resposta: desde as alterações climáticas às desigualdades sociais, passando pelas grandes vagas migratórias, pela redução da biodiversidade, pelo desrespeito pelos direitos humanos, pelos conflitos bélicos, religiosos e económicos cada vez mais relevantes.

Como é óbvio, a pandemia não resolveu nenhuma destas situações. Apenas as retirou do topo da agenda mediática e política - lugar que passou a ser ocupado pela crise sanitária - apesar de na sua maioria elas serem hoje mais graves do que há um ano e meio.
No entanto, a pandemia revelou duas coisas. Em primeiro lugar, que uma ameaça global, como a causada por um vírus resiliente e mutante, só pode ser combatida com uma resposta global - mesmo que nem sempre articulada e, muito menos, solidária. Em segundo lugar, que o "novo normal" será bem distinto do "velho normal", com tudo o que isso possa encerrar de destrutivo mas também de inovador.

Por outras palavras, num momento em que se começa a ver a luz ao fundo do túnel (será?), não nos podemos esquecer de que o mundo vive uma enorme oportunidade: a de provar que é capaz de lidar com os desafios globais que vinham de trás. Se está a conseguir dar resposta à crise sanitária, também tem de conseguir dar resposta às outras ameaças coletivas.
A este respeito, o World Economic Forum tem vindo a estruturar as suas propostas em torno de três eixos: a criação de um capitalismo virado para os stakeholders, e não apenas para os shareholders, que coloque no centro da atuação das empresas a resposta a interesses diversos e não apenas a maximização do lucro; a criação de um sistema mais resiliente e equilibrado que conjugue crescimento económico com sustentabilidade social e ambiental; e a aposta muito clara na inovação, designadamente de base tecnológica, colocando-a ao serviço de um desenvolvimento mais verde, inclusivo e inteligente.

Na mesma linha, reputadas empresas de consultaria como a McKinsey & Company têm vindo a chamar a atenção para o stakeholder capitalism. Um sistema que, continuando a colocar a iniciativa privada como motor do desenvolvimento económico, promova o surgimento de empresas mais viradas para a satisfação das necessidades dos clientes a longo prazo, que incorporem nas suas estratégias objetivos ambientais claros, que reconfigurem as suas estruturas de governação dando ênfase à vertente social e, last but not least, que apostem em políticas que promovam o crescimento dos seus empregados não só enquanto profissionais mas também como pessoas e cidadãos, e não como meros recursos descartáveis.

Sei que ainda andamos atarefados em torno da vacinação, da emergência de novas estirpes e dos cuidados de saúde mais básicos em muitos países. Mas não nos podemos esquecer de que esta é uma oportunidade única para criarmos um mundo melhor. Se fizermos como a avestruz - alegando, como desculpa esfarrapada, que estamos muito ocupados com a crise sanitária - não nos admiremos que no futuro haja novas "pandemias", venham elas sob a forma de aquecimento global insustentável, de vagas migratórias imparáveis ou de populismos políticos que promovam soluções ditatoriais em defesa do nacionalismo, do protecionismo e do supremacismo.

Vice-Reitor da Universidade Portucalense

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de